{"id":100953,"date":"2018-03-29T18:35:32","date_gmt":"2018-03-29T17:35:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=100953"},"modified":"2018-03-29T18:42:17","modified_gmt":"2018-03-29T17:42:17","slug":"homilia-do-bispo-de-aveiro-na-missa-crismal-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-aveiro-na-missa-crismal-6\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Aveiro na Missa Crismal"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Fez de n\u00f3s um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai, a Ele a gl\u00f3ria e o poder pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos<\/em><\/strong> (<em>Ap<\/em> 1, 6).<!--more--><\/p>\n<ol>\n<li><strong> Cristo, o centro da vida do sacerdote<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Estimados padres, di\u00e1conos, consagrados e Povo de Deus:<\/p>\n<p>O texto da segunda leitura da Eucaristia de hoje faz parte da sauda\u00e7\u00e3o que o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o dirige \u00e0s sete Igrejas da \u00c1sia Menor, que simbolizam todas as Igrejas, incluindo a nossa Igreja, a Diocese de Aveiro. O texto afirma que n\u00f3s somos um povo de sacerdotes pelo Batismo e pela Eucaristia, cumprindo-se assim o que tinha sido dito no livro do <em>\u00caxodo<\/em>: \u00ab<em>V\u00f3s sereis para mim um reino de sacerdotes e uma na\u00e7\u00e3o santa<\/em>\u00bb (<em>\u00cax<\/em> 5,10). Com o sacramento da Ordem, recebido no dia da nossa ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, cumprem-se em n\u00f3s as palavras do profeta Isa\u00edas \u00ab<em>o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos infelizes, a curar os cora\u00e7\u00f5es atribulados, a proclamar a reden\u00e7\u00e3o aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a proclamar o ano da gra\u00e7a do Senhor<\/em>\u00bb (<em>Is<\/em> 61,1-2).<\/p>\n<p>O Decreto sobre o Minist\u00e9rio e a Vida dos sacerdotes, do Conc\u00edlio Vaticano II, apela para que os presb\u00edteros, no exerc\u00edcio do seu minist\u00e9rio, \u00abn\u00e3o se conformem a este mundo, mas que vivam neste mundo entre os homens e, como bons pastores, conhe\u00e7am as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que n\u00e3o pertencem a este redil, para que tamb\u00e9m elas oi\u00e7am a voz de Cristo e haja um s\u00f3 rebanho e um s\u00f3 pastor\u00bb (<em>PO<\/em> 3).<\/p>\n<p>Cristo \u00e9, de facto, o centro da nossa vida, dos nossos trabalhos e dos nossos projetos: Ele \u00e9 o \u00abAlfa e o \u00d3mega, aquele que \u00e9, que era e que h\u00e1 de vir, o Todo-Poderoso\u00bb. Com Ele, \u201c\u00fanico pastor\u201d, n\u00e3o temos nada a temer.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> O dom da voca\u00e7\u00e3o presbiteral <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Nesta Quinta-Feira Santa, revemos a nossa identidade, as nossas dificuldades e possibilidades. A vida do padre est\u00e1 sujeita a muitas contradi\u00e7\u00f5es na sociedade em que vivemos, mesmo nas comunidades crist\u00e3s onde exercemos o nosso minist\u00e9rio: somos vistos como pessoas solit\u00e1rias, muitas vezes alheados das preocupa\u00e7\u00f5es do mundo de hoje, ou ent\u00e3o constru\u00edmos um estilo de vida bastante individual e pouco comunit\u00e1rio. Sentimos tamb\u00e9m, no interior de n\u00f3s mesmos, que h\u00e1 um div\u00f3rcio entre a vida e a f\u00e9, que o an\u00fancio do Evangelho, enquanto Boa Nova de salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 entendido por muitos que vivem \u00e0 nossa volta. O mesmo aconteceu com os ap\u00f3stolos de Jesus, que experimentaram os sinais de incompreens\u00e3o. Verifica-se uma certa incapacidade dos disc\u00edpulos para compreender e reconhecer os sinais de Jesus \u2013 sinal de que apesar de terem respondido ao seu chamamento, de o seguirem e de serem enviados por Ele, n\u00e3o os tornou disc\u00edpulos exemplares, uma vez que com a sua atitude, eles pr\u00f3prios se colocaram \u00e0 margem do projeto de Jesus; da\u00ed precisarem de ser curados por Ele.<\/p>\n<p>Onde buscar for\u00e7as para sermos sal que d\u00ea sabor e luz que ilumine tantos dos nossos irm\u00e3os que andam afastados do projeto que Deus tem para a humanidade?<\/p>\n<p>Olhando para a nossa vida de sacerdotes e di\u00e1conos (o mesmo se diga dos consagrados) quero refletir convosco e destacar algumas dimens\u00f5es que nos podem ajudar na nossa vida de pastores ao servi\u00e7o do povo de Deus (cf. <em>Ratio fundamentalis<\/em> &#8211; Dimens\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o, V).<\/p>\n<p>A <em>dimens\u00e3o humana<\/em> deve estar muito presente na nossa vida e na rela\u00e7\u00e3o com os nossos irm\u00e3os. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel sermos sacerdotes de trato am\u00e1vel, aut\u00eanticos, leais, interiormente livres, afetivamente est\u00e1veis, capazes de nos dedicarmos aos outros com a alegria de sermos amados por Deus.<\/p>\n<p>A segunda dimens\u00e3o \u00e9 a da <em>espiritualidade<\/em>, a qual nunca se pode dar por adquirida. A consci\u00eancia da nossa identidade presbiteral n\u00e3o se mede por aquilo que fazemos, nem pelo modo como organizamos a vida das nossas par\u00f3quias, mas sim em sermos disc\u00edpulos verdadeiramente enamorados do Senhor, cuja vida e minist\u00e9rio se fundam na \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com Deus e na configura\u00e7\u00e3o a Cristo, o Bom Pastor. Na companhia de Jesus, os disc\u00edpulos foram aprendendo algo mais que uns ensinamentos; foram adquirindo um estilo de vida e, a pouco a pouco, foram participando da sua miss\u00e3o. S\u00f3 depois de amadurecida a resposta e de fazer parte da sua nova fam\u00edlia, assumindo as mesmas atitudes e o mesmo estilo de vida, podem os disc\u00edpulos ser enviados a proclamar eficazmente a boa nova que Jesus anuncia, para que a vida de Deus se manifeste na vida do mundo.<\/p>\n<p>Para o crist\u00e3o h\u00e1 apenas um caminho para encontrar o que agrada a Deus \u2013 o do <em>discernimento<\/em> \u2013 discernimento este que depende da pessoa e da abertura da sua consci\u00eancia ao Esp\u00edrito: <em>\u00abE \u00e9 isto o que eu pe\u00e7o, que o vosso amor cres\u00e7a cada vez mais em conhecimento e sensibilidade, a fim de poderdes discernir o que mais conv\u00e9m\u00bb<\/em> (<em>Fl<\/em> 1,9-10). Discernir n\u00e3o \u00e9 defender a pr\u00f3pria maneira de pensar, a pr\u00f3pria iniciativa e a pr\u00f3pria independ\u00eancia, mas renunciar ao saber que procede do mundo, para encontrar o saber que procede de Deus. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, abrir o cora\u00e7\u00e3o \u00e0s sugest\u00f5es interiores do Esp\u00edrito, que convida a ler em profundidade os des\u00edgnios da Provid\u00eancia. O discernimento \u00e9 essencial para a maturidade e o crescimento espiritual. O processo passa por escutar e aprender a reconhecer a \u2018voz de Deus\u2019 dentro de n\u00f3s pr\u00f3prios. Diz-nos a experi\u00eancia que quando a Igreja n\u00e3o responde satisfatoriamente aos anseios espirituais e existenciais do mundo na sua realidade hist\u00f3rica concreta, o mundo cria respostas e caminhos que procuram satisfazer as necessidades e ang\u00fastias existenciais.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> Mem\u00f3ria agradecida do nosso presbit\u00e9rio<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na origem da voca\u00e7\u00e3o ao presbiterado h\u00e1 uma esp\u00e9cie de elei\u00e7\u00e3o que Deus faz livremente, e fora de toda a considera\u00e7\u00e3o meramente humana, a favor de uma pessoa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entrega de uma miss\u00e3o. \u00c9 o que se conclui das palavras de Jesus aos ap\u00f3stolos: \u00ab<em>N\u00e3o fostes v\u00f3s que me escolhestes; fui eu que vos escolhi a v\u00f3s e vos destinei a ir e dar muito fruto, e fruto que permane\u00e7a<\/em>\u00bb (<em>Jo<\/em> 15,16).<\/p>\n<p>Hoje, damos gra\u00e7as por todos os sacerdotes do nosso presbit\u00e9rio; pelo dom do sacramento da Ordem conferido h\u00e1 cinquenta anos ao padre Jos\u00e9 Nunes Ferreira dos Santos (10\/4\/1978) e os vinte e cinco anos dos padres Francisco Jos\u00e9 Rodrigues de Melo (10\/1\/1993) e Jos\u00e9 Augusto Pinho Nunes (15\/8\/1993). Dom gratuito de Deus, concedido pelo Esp\u00edrito Santo, a voca\u00e7\u00e3o ao presbiterado \u00e9 confiada aos cuidados da comunidade eclesial. A Igreja diocesana acompanha estes nossos irm\u00e3os com as suas ora\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo que agradece todo o bem realizado em favor do reino de Deus.<\/p>\n<p>O di\u00e1cono \u00e9 colocado \u00abperante a Igreja como prolongamento vis\u00edvel e sinal sacramental de Cristo no seu pr\u00f3prio estar diante da Igreja e do mundo, como origem permanente e sempre nova da salva\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>PD<\/em>V 16). A voca\u00e7\u00e3o \u00e9 um dom do Esp\u00edrito, que s\u00f3 pode frutificar quando \u00e9 aceite pela Igreja local: bispo, presb\u00edteros e comunidade crist\u00e3; e aceite na alegria, porque \u00e9 dom de Deus. Agradecemos este dom do diaconado na nossa Igreja de Aveiro, recebido h\u00e1 vinte e cinco anos, no dia 15 de agosto de 1993, na pessoa dos nossos irm\u00e3os Ant\u00f3nio Carlos Vila\u00e7a Delgado, Diamantino Neves Murteiro, Eduardo Rodrigues, Manuel Ara\u00fajo da Silva e Porf\u00edrio Vieira de Carvalho e Silva.<\/p>\n<p>Ao longo deste ano, o Senhor chamou a si o nosso anterior bispo de Aveiro, D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos (11\/9\/2017); D. Ant\u00f3nio Santos (26\/3\/2018), bispo em\u00e9rito da Guarda e membro do nosso presbit\u00e9rio antes da sua nomea\u00e7\u00e3o episcopal; o padre Agostinho Teixeira que, sendo inicialmente beneditino, exerceu a maior parte do seu minist\u00e9rio no arciprestado de Anadia; o padre J\u00falio da Rocha Rodrigues, indelevelmente unido \u00e0 par\u00f3quia de S. Pedro de Aradas; o padre Jos\u00e9 Manuel Regateiro da Silva, do presbit\u00e9rio de \u00c9vora, que dos quase setenta e cinco anos de sacerd\u00f3cio passou quase a totalidade deles na Murtosa; e o di\u00e1cono Jos\u00e9 Lu\u00eds Macedo, que foi exemplo para n\u00f3s na forma como soube levar a cruz do sofrimento unida \u00e0 paix\u00e3o do Senhor.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os sacerdotes, di\u00e1conos e consagrados, esperamos que brevemente a Igreja possa canonizar o Beato Bartolomeu dos M\u00e1rtires, que foi modelo de frade dominicano, sacerdote e de bispo, sendo um trabalhador incans\u00e1vel da vinha do Senhor. Num gesto de mem\u00f3ria agradecida, no final da nossa celebra\u00e7\u00e3o ser\u00e1 oferecido a cada um de v\u00f3s um exemplar de uma das suas obras mais conhecidas \u2013 <em>Est\u00edmulo de Pastores<\/em>. Escrito por ele e para ele pr\u00f3prio na ocasi\u00e3o da sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal, foi e continua a ser fonte de inspira\u00e7\u00e3o para todos quantos fomos chamados a identificar-nos com Cristo: \u00abO pastor seja o primeiro na a\u00e7\u00e3o, mais que todos, dado \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, discreto no sil\u00eancio, \u00fatil no falar, pr\u00f3ximo de todos pela compaix\u00e3o, companheiro humilde dos que procedem bem. Zeloso da justi\u00e7a contra os v\u00edcios dos pecadores, n\u00e3o diminuindo o cuidado dos de dentro por causa da ocupa\u00e7\u00e3o dos de fora, n\u00e3o deixando de providenciar aos de dentro por causa da solicitude pelos de fora\u00bb.<\/p>\n<p>Que a prote\u00e7\u00e3o da Virgem Maria, a Senhora do sim e a intercess\u00e3o de Santa Joana Princesa, nossa padroeira, e a nos ensinem a ser disc\u00edpulos mission\u00e1rios, enamorados do Mestre, pastores com cheiro a ovelhas, que vivam no meio delas para as servir e conduzir \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus, na certeza de que somos amados por Ele.<\/p>\n<p>Amen.<\/p>\n<p>Catedral de Aveiro, 29 de mar\u00e7o de 2018<br \/>\n<em>\u2020<\/em> Ant\u00f3nio Manuel Moiteiro Ramos,<em> Bispo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fez de n\u00f3s um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai, a Ele a gl\u00f3ria e o poder pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos (Ap 1, 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