{"id":100950,"date":"2018-03-29T18:04:47","date_gmt":"2018-03-29T17:04:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=100950"},"modified":"2018-03-29T18:04:47","modified_gmt":"2018-03-29T17:04:47","slug":"homilia-da-missa-crismal-de-d-virgilio-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-da-missa-crismal-de-d-virgilio-antunes\/","title":{"rendered":"Homilia da Missa Crismal de D. Virg\u00edlio Antunes"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>Regressamos hoje aos momentos fundantes da nossa voca\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os e de sacerdotes, quando o Senhor nos encontrou entregues a n\u00f3s mesmos, perdidos nos desertos da vida, e lan\u00e7ou sobre n\u00f3s o seu olhar de miseric\u00f3rdia, nos chamou pelo nome e fez de n\u00f3s filhos e amigos. Longe de n\u00f3s a veleidade de pensar que o que somos se deve \u00e0 nossa iniciativa, \u00e0s nossas qualidades ou \u00e0 nossa capacidade de descobrir Deus, de o amar e de o servir. Tudo o que somos enquanto filhos chamados e enviados se deve a uma iniciativa que n\u00e3o nasceu de n\u00f3s e a uma voca\u00e7\u00e3o que nos foi dada.<\/p>\n<p>Quando meditamos seriamente neste mist\u00e9rio que nos envolve, sentimo-nos maravilhados com a bondade de Deus, fazemos da nossa vida um hino de infinitas gra\u00e7as e renovamos c\u00e1 dentro a decis\u00e3o de fidelidade a um amor e a um servi\u00e7o que nos ultrapassam infinitamente. Parafraseando o Salmo 8 podemos repetir de novo: \u201cQue \u00e9 o homem para que vos lembreis dele, o filho do homem para dele vos ocupardes&#8230;\u201d e ainda, \u201cquem sou eu para que olheis para mim com miseric\u00f3rdia divina, para fazerdes de mim instrumento da vossa bondade junto dos meus irm\u00e3os?\u201d<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os, neste solene momento de memorial e de compromisso de fidelidade, deixemos ecoar de novo nos nossos ouvidos a profecia de Isa\u00edas reassumida pelo Evangelho segundo Lucas: \u201cO Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres\u201d. Ao ler estas palavras do Profeta na sinagoga de Nazar\u00e9, Jesus revela qual a miss\u00e3o que o Pai lhe confiou: anunciar a boa nova. Depois continua revelando qual o seu conte\u00fado e m\u00e9todo: proclamar a reden\u00e7\u00e3o aos cativos e a vista aos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da gra\u00e7a do Senhor. Como conte\u00fado, a salva\u00e7\u00e3o de todos os que n\u00e3o t\u00eam a salva\u00e7\u00e3o nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os, os pobres; como m\u00e9todo, o envio e consequente sa\u00edda ao seu encontro, onde quer que estejam.<\/p>\n<p>A un\u00e7\u00e3o de Jesus como Messias j\u00e1 antes prefigurada na un\u00e7\u00e3o de profetas, sacerdotes e reis, faz repousar sobre Ele o Esp\u00edrito Santo em ordem \u00e0 miss\u00e3o. Trata-se de uma presen\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 um simples benef\u00edcio pessoal, nem sequer um enriquecimento individual, mesmo que constitua o maior dom que Deus concede aos seus escolhidos. Jesus fez do an\u00fancio do Evangelho da Salva\u00e7\u00e3o de Deus o crit\u00e9rio mobilizador de toda a sua vida e a\u00e7\u00e3o junto dos homens.<\/p>\n<p>Essa presen\u00e7a do Esp\u00edrito \u00e9 portadora do dinamismo da miss\u00e3o que leva Jesus a p\u00f4r-se a caminho e que h\u00e1 de levar a sua Igreja a p\u00f4r-se num constante dinamismo de sa\u00edda. Quando no Credo professamos a nossa f\u00e9 na Igreja Apost\u00f3lica, n\u00e3o estamos simplesmente a fazer refer\u00eancia aos Doze Ap\u00f3stolos enquanto alicerces da constru\u00e7\u00e3o do Povo de Deus, mas estamos tamb\u00e9m a proclamar o modo de ser da mesma Igreja, ungida pelo Esp\u00edrito Santo e enviada em miss\u00e3o at\u00e9 aos confins da terra. Sermos Igreja Apost\u00f3lica \u00e9, por um lado, uma realidade fundante da condi\u00e7\u00e3o de eclesialidade e, por outro, uma atitude que nos \u00e9 pedida: a disponibilidade para anunciar a boa nova por meio do dinamismo da sa\u00edda ao encontro de todos os que Deus quer salvar.<\/p>\n<p>A fidelidade ao Evangelho exige sempre \u00e0 Igreja esta convers\u00e3o \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, ao dinamismo da miss\u00e3o, \u00e0 atitude de sa\u00edda. S\u00e3o ainda muitas as resist\u00eancias: ao longo dos tempos, enquanto Igreja de cristandade, habitu\u00e1mo-nos a apresentar-nos como um reduto da verdade, como uma fortaleza de virtudes, como uma morada que todos procuram, como uma institui\u00e7\u00e3o a todos os t\u00edtulos cred\u00edvel. Deparamo-nos frequentemente com uma Igreja d\u00e9bil, sem real influ\u00eancia na sociedade, guardi\u00e3 de templos transformados em museus, reduzida a pequenos grupos de crist\u00e3os que se sentem diante de uma miss\u00e3o sobre-humana, pecadora e com uma credibilidade pouco reconhecida.<\/p>\n<p>Estamos, car\u00edssimos irm\u00e3os, no tempo do Esp\u00edrito que nos levar\u00e1 a regressar ao Evangelho, no tempo da Igreja, Corpo de Cristo e mist\u00e9rio de comunh\u00e3o, que se tornar\u00e1 serva de Deus e da humanidade, centrada no an\u00fancio da Boa Nova da Salva\u00e7\u00e3o pela via da sa\u00edda ao encontro dos pobres, dos cativos, dos cegos, dos oprimidos referidos na Escritura, ou seja, da humanidade ferida e a clamar urgentemente por consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica A Alegria do Evangelho, o Papa Francisco deixou-nos esse clamor em ordem \u00e0 mudan\u00e7a de atitude da Igreja que somos, tantas vezes citado e que, em grande parte, ainda n\u00e3o conseguimos acolher: \u201cSonho com uma op\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os hor\u00e1rios, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o do mundo atual que \u00e0 auto-preserva\u00e7\u00e3o\u201d (27).<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio de a\u00e7\u00e3o da Igreja ser\u00e1 tamb\u00e9m a evangeliza\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 por ela que levaremos ao amor a Cristo e \u00e0 comunidade Crist\u00e3. A organiza\u00e7\u00e3o, as regras e a pr\u00f3pria lei ser\u00e3o sempre meios e caminhos para levar o Evangelho ao cora\u00e7\u00e3o e \u00e0 vida da humanidade que anseia por Cristo, mesmo sem o saber.<\/p>\n<p>Nesta celebra\u00e7\u00e3o festiva em que confrontamos a nossa vida com a luz da un\u00e7\u00e3o sacramental e com o dom do Esp\u00edrito que repousa sobre n\u00f3s, convido-vos, car\u00edssimos irm\u00e3os sacerdotes, a redefinirmos o nosso modo de ser, de estar e de agir a partir do dinamismo mission\u00e1rio do Evangelho. Havemos de fazer do an\u00fancio do Evangelho da Salva\u00e7\u00e3o o crit\u00e9rio de toda a nossa vida e a\u00e7\u00e3o de padres, de pastores e de crist\u00e3os.<\/p>\n<p>A nossa convers\u00e3o a Deus e ao Evangelho h\u00e1 de implicar sempre a disponibilidade para acolher os caminhos propostos pela Igreja, na certeza de que s\u00e3o os caminhos adequados para a realiza\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o em cada tempo e em cada situa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Por sua vez, a renova\u00e7\u00e3o das promessas sacerdotais e a manifesta\u00e7\u00e3o do nosso desejo de fidelidade ao dom que recebemos, deve implicar tamb\u00e9m a disponibilidade para viver o chamamento e a miss\u00e3o de anunciar a Boa Nova com novo ardor, novos m\u00e9todos e novas express\u00f5es, como nos pediu S. Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os car\u00edssimos, enquanto disc\u00edpulos-mission\u00e1rios, mais do que nunca, havemos de ir ao encontro da humanidade com palavras de f\u00e9 e de esperan\u00e7a, e com um cora\u00e7\u00e3o rico de miseric\u00f3rdia, como o cora\u00e7\u00e3o de Deus revelado em Jesus. Por essa raz\u00e3o, a Profecia de Isa\u00edas especifica o conte\u00fado e o m\u00e9todo do an\u00fancio mission\u00e1rio por meio de dois grupos de verbos: anunciar e proclamar, para se referir \u00e0 prega\u00e7\u00e3o da Palavra; curar e consolar, para reclamar a for\u00e7a da proximidade e do amor.<\/p>\n<p>\u201cRecuperemos e aumentemos o fervor de esp\u00edrito, \u00aba suave e reconfortante alegria de evangelizar\u00bb (&#8230;). E que o mundo do nosso tempo (&#8230;) possa receber a Boa Nova dos l\u00e1bios (&#8230;) de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo\u201d (A Alegria do Evangelho, 10).<\/p>\n<p>Em nome da Igreja Diocesana de Coimbra, que o Senhor me chamou a servir, agrade\u00e7o aos presb\u00edteros, aos di\u00e1conos e a tantos membros leigos do Povo de Deus os muitos sinais de dinamismo renovador e de coragem para percorrer novos caminhos de evangeliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que muitas comunidades j\u00e1 tomaram consci\u00eancia de que n\u00e3o basta uma pastoral de preserva\u00e7\u00e3o e que h\u00e1 muito a fazer em ordem a um maior enraizamento espiritual, a uma celebra\u00e7\u00e3o da liturgia mais profunda, a uma catequese que leve ao encontro com Cristo e com a sua Igreja.<\/p>\n<p>Dado que somos Igreja Comunh\u00e3o, que nos ajudemos uns aos outros, sobretudo quando faltar o \u00e2nimo ou a capacidade de vislumbrar os caminhos a percorrer. Que os mais fortes animem os mais fracos; que as comunidades mais ricas em meios humanos e dons espirituais ajudem as mais pobres; que todas as estruturas da Diocese, dos arciprestados, das unidades pastorais, dos secretariados, dos movimentos e grupos se interroguem seriamente acerca dos seus objetivos, do seu programa, da sua metodologia e num desejo de convers\u00e3o pastoral, se reorganizem e se reorientem para a miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Que o \u00f3leo do Crisma com o qual fomos ungidos para a miss\u00e3o no batismo, na confirma\u00e7\u00e3o e na ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, e que nos configurou com Cristo profeta, sacerdote e rei, nos inebrie com a sua gra\u00e7a a fim de experimentarmos em todos os momentos a \u201csuave e reconfortante alegria de evangelizar\u201d (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, 80).<\/p>\n<p>Acompanhe-nos a Virgem Santa Maria, portadora de Jesus, o Evangelho de Deus, h\u00e1 dois mil anos como mulher e agora como Igreja, mas sempre como M\u00e3e.<\/p>\n<p>Coimbra, 29 de abril de 2018<\/p>\n<p>Virg\u00edlio do Nascimento Antunes, Bispo de Coimbra<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":4,"featured_media":100951,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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