{"id":100931,"date":"2018-03-29T16:57:08","date_gmt":"2018-03-29T15:57:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=100931"},"modified":"2018-03-29T16:57:08","modified_gmt":"2018-03-29T15:57:08","slug":"homilia-na-missa-vespertina-da-ceia-do-senhor-do-arcebispo-de-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-na-missa-vespertina-da-ceia-do-senhor-do-arcebispo-de-braga\/","title":{"rendered":"Homilia na Missa Vespertina da Ceia do Senhor do arcebispo de Braga"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Encontramos neste Evangelho um interessante encerramento do ciclo da vida p\u00fablica de Jesus. Quando Jesus e Maria foram convidados para as \u201cBodas de Can\u00e1\u201d, Maria deu pela falta de vinho e pediu a intercess\u00e3o do seu filho. Jesus respondeu-lhe \u201cQue tem isso a ver contigo e comigo? Ainda n\u00e3o chegou a minha hora\u201d (Jo 2,4). Neste momento n\u00e3o sabemos ainda bem a que hora se refere. Seria a hora de manifestar os seus milagres, a hora de anunciar o Reino de Deus ou, porventura, a hora da ressurrei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Chegados a esta passagem b\u00edblica, o evangelista Jo\u00e3o fecha o ciclo com um breve apontamento. \u201cSabendo bem que tinha chegado a sua hora [\u2026] levou o seu amor por eles at\u00e9 ao extremo\u201d (Jo 13,2). \u00c9, neste momento, claro que se trata da hora da paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o, a hora de passar deste mundo para o Pai.<\/p>\n<p>Gostaria que nos transport\u00e1ssemos por um momento para o lugar de Jesus. Tendo consci\u00eancia de que os nossos dias estariam perto do ocaso, o que far\u00edamos? Nos \u00faltimos anos t\u00eam surgido, na comunica\u00e7\u00e3o social, alguns testemunhos interessantes. Referem-se sobretudo a situa\u00e7\u00f5es de cancro terminal. Uns aproveitariam os \u00faltimos dias para se casar, outros para fazerem palestras de motiva\u00e7\u00e3o, outros para viajarem pelo mundo, outros para se preocuparem com o bem-estar e o futuro dos seus descendentes. Em s\u00edntese, diante da morte, a maior parte das pessoas procuraria realizar sonhos pessoais ou cuidar do futuro dos seus pr\u00f3ximos. O que fez Jesus?. \u201cAmou-os at\u00e9 ao fim\u201d (Jo 13,2).<\/p>\n<p>O que significa neste caso \u201camar at\u00e9 ao fim\u201d? Pode significar duas coisas. Em primeiro lugar, amar at\u00e9 \u00e0 \u00faltima hora, at\u00e9 ao fim cronol\u00f3gico da sua vida. N\u00e3o houve um minuto sem que tenha deixado de amar aqueles com quem partilhou a sua vida ou aqueles que lhe foram confiados pelo seu Pai. Em segundo lugar, \u201cat\u00e9 ao fim\u201d diz-nos que amou com todo o seu ser, com todas as suas energias. Amou sem reservas e com tudo aquilo que tinha para dar. Amou at\u00e9 aquele que mais tarde o entregou. \u00c9 este amor absoluto, no tempo e na forma, que depois se materializa no gesto do lava-p\u00e9s.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que Jesus sentiu necessidade de cumprir este antigo ritual de lavar os p\u00e9s? Um gesto t\u00edpico de hospitalidade, sobretudo da parte dos escravos para com o seu senhor. Sabemos bem que nem Jesus \u00e9 escravo nem os ap\u00f3stolos s\u00e3o senhores. \u00c9 com o intuito de dar o exemplo que o faz, ou seja, o Mestre quer deixar um legado de esperan\u00e7a que se perpetue mesmo ap\u00f3s a sua passagem. \u00c9 poss\u00edvel e \u00e9 necess\u00e1rio um modo diferente de estar nada vida. \u201cDei-vos o exemplo para que, assim como Eu fiz, v\u00f3s fa\u00e7ais tamb\u00e9m\u201d (Jo 13,15), uma vez que \u201co Filho do Homem n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos\u201d (Mc 10,45).<\/p>\n<p>O desejo de lavar os p\u00e9s, no horizonte de Jesus, \u00e9 um sacramento, como afirmaram os padres da Igreja e como afirmou S. Bernardo quando disse que o lava-p\u00e9s \u00e9 um sacramento a par do baptismo e da eucaristia. H\u00e1 um horizonte a perseguir e a ser replicado como memorial, isto \u00e9, colocar-se numa atitude de servi\u00e7o uns para com os outros (Jo 13,14-15).<\/p>\n<p>Tendo presente que falamos da \u00faltima hora de Jesus, n\u00e3o consigo deixar de ter presente no cora\u00e7\u00e3o todas pessoas que se encontram numa situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade delicada, assim como as suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Refiro-me, de modo particular, aos pacientes a quem s\u00e3o prestados cuidados continuados e paliativos. Diversas institui\u00e7\u00f5es, assim como quem olha com realismo para o fim da vida, t\u00eam alertado que o n\u00famero de unidades de cuidados paliativos e continuados \u00e9 insuficiente para acolher todos os doentes oncol\u00f3gicos. O n\u00famero de casos de cancro e de doen\u00e7a cr\u00f3nica tem aumentado, os pedidos de ajuda t\u00eam crescido e, infelizmente, as respostas sociais n\u00e3o d\u00e3o uma resposta cabal a esta nova realidade. Devemos tamb\u00e9m lembrar-nos dos idosos. Felizmente tem aumentado a esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida mas, ao mesmo tempo, isso deve ser acompanhado de um esfor\u00e7o acrescido das institui\u00e7\u00f5es em dar resposta \u00e0s fragilidades t\u00edpicas desta idade. Uma sociedade que se desresponsabiliza de tratar, com compet\u00eancia e ternura, os seus irm\u00e3os \u00e9 uma sociedade desumana.<\/p>\n<p>Creio, ao mesmo tempo, que t\u00e3o importante quanto tratar o corpo \u00e9 tratar da sa\u00fade espiritual e an\u00edmica destes irm\u00e3os. Tive oportunidade, h\u00e1 tempos, de ler o testemunho de uma experiente enfermeira que trabalhou v\u00e1rios anos nos cuidados paliativos. Acompanhava as pessoas nas \u00faltimas 12 semanas da sua vida, isto \u00e9, aquelas pessoas que viam chegar a sua hora. Desta experi\u00eancia nasceu um livro que sintetiza \u201cos cinco grandes arrependimentos na hora de partir\u201d. S\u00e3o testemunhos de pessoas que fazem um exame de consci\u00eancia no leito de morte e pedem que outros n\u00e3o cometam os mesmos erros. E nada podendo fazer para alterar o rumo da sua vida, sentem remorsos.<\/p>\n<p>O primeiro arrependimento \u00e9 \u201cgostaria de ter tido a coragem de viver fiel a mim mesmo, e n\u00e3o a vida que outros esperavam de mim\u201d. Este \u00e9 o problema de n\u00e3o sermos aut\u00eanticos, de vivermos segundo as expectativas dos outros e de nos conformarmos \u00e0 realidade como se ela fosse uma fatalidade. Somos, neste sentido, apenas e s\u00f3 um produto do ambiente. Quando outros pensam por n\u00f3s, deixamos de pensar por n\u00f3s mesmos. Pode ser um projecto familiar, um trabalho, um sonho ou at\u00e9, quem sabe, uma voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo arrependimento \u00e9 \u201cgostaria de n\u00e3o ter trabalhado tanto\u201d. Aquilo que come\u00e7a por ser uma justa preocupa\u00e7\u00e3o, rapidamente pode tornar-se numa armadilha: garantir um futuro melhor para os filhos, garantir uma reforma, melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida ou at\u00e9 comprar isto ou aquilo que tanto se deseja. \u00c9 uma armadilha porque ao inv\u00e9s de trabalharmos para viver bem, vivemos para trabalhar. Como \u00e9 \u00f3bvio, isto traz consequ\u00eancias a n\u00edvel pessoal, familiar e espiritual. Muitas pessoas morrem amarguradas porque, tendo idealizado um futuro risonho, t\u00eam consci\u00eancia de terem vivido sufocadas pelo trabalho e, inclusive, acabam por morrer sozinhas.<\/p>\n<p>O terceiro arrependimento \u00e9 \u201cgostaria de ter tido a coragem de expressar os meus sentimentos\u201d. Para muitas pessoas, expressar emo\u00e7\u00f5es \u00e9 sinal de fraqueza. Na verdade, os sentimentos s\u00e3o o motor das rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Quantas vezes n\u00e3o se diz o que se sente e se vive amargurado? Teremos desaprendido a gram\u00e1tica dos afectos?<\/p>\n<p>O quarto arrependimento \u00e9 \u201cgostaria de ter mantido o contacto com os meus amigos\u201d. Esta \u00e9 uma realidade t\u00e3o comum quanto desvalorizada. Temos sempre, ao longo dos dias, tantas prioridades, ocupa\u00e7\u00f5es e justifica\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas para n\u00e3o estarmos com os amigos e familiares. Mas, uma vez mais, ser\u00e1 esse o objectivo de uma vida plena, de felicidade e de entrega aos outros? As amizades n\u00e3o s\u00e3o um acess\u00f3rio da vida. Tal como nas fam\u00edlias, tamb\u00e9m elas precisam de ser alimentadas, precisam de tempo e de empenho pessoal.<\/p>\n<p>Por fim, o \u00faltimo \u00e9 \u201cgostaria de me ter permitido ser mais feliz\u201d. Este \u00e9 o objectivo derradeiro de todas as pessoas: ser feliz. Talvez por medo, por ocupa\u00e7\u00f5es exageradas, por condicionamentos externos ou at\u00e9 por uma certa dose de egocentrismo v\u00e1rias pessoas nunca o chegam a ser. Imaginemo-nos chegados ao fim da nossa vida. O que gostar\u00edamos de ter realizado que n\u00e3o fizemos?<\/p>\n<p>Chegados a este ponto, a actualidade do gesto do lava-p\u00e9s parece-nos mais clara. Servirmos o mundo de toalha \u00e0 cintura significa gastar a vida pelos outros e, concretamente, o compromisso de humanizar a \u201c\u00faltima hora\u201d de quem se encontra em cuidados continuados ou paliativos. Nenhum esfor\u00e7o, humano ou econ\u00f3mico, \u00e9 in\u00fatil neste sector. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma necessidade imperiosa. Mas, infelizmente, continuamos a assistir a op\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e economicistas que olham para as pessoas como meros n\u00fameros. Da\u00ed que hoje, neste dia do mandato do amor, tenha querido prestar homenagem e gratid\u00e3o a todos quantos cuidam dos idosos e doentes terminais. Quis, simbolicamente, lavar os p\u00e9s a doze trabalhadores de algumas Institui\u00e7\u00f5es Particulares de Solidariedade Social ligadas \u00e0 Igreja de Braga. Neles, o obrigado da Arquidiocese a tantos curadores an\u00f3nimos, no mundo das institui\u00e7\u00f5es ou fam\u00edlias. Que nunca se cansem e que procurem amar at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o a Deus que a toalha \u00e0 cintura e o compromisso crist\u00e3o traga um pouco de luz e de esperan\u00e7a aos pacientes e profissionais dos cuidados continuados e paliativos. Pe\u00e7o-Lhe tamb\u00e9m que o amor e a presen\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o permita que ningu\u00e9m morra amargurado, sem o carinho e amor que merecem somente por serem seres humanos. Que a toalha \u00e0 cintura simbolize a vida de todos os crist\u00e3os<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":4,"featured_media":100932,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[172,308],"class_list":["post-100931","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-braga","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100931\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/100932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}