{"id":100327,"date":"2018-03-26T11:54:21","date_gmt":"2018-03-26T10:54:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=100327"},"modified":"2018-03-26T11:54:21","modified_gmt":"2018-03-26T10:54:21","slug":"homilia-no-domingo-de-ramos-do-arcebispo-de-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-no-domingo-de-ramos-do-arcebispo-de-braga\/","title":{"rendered":"Homilia no Domingo de Ramos do Arcebispo de Braga"},"content":{"rendered":"<p>\u00abAs m\u00e3os que tocam o Rei da Gl\u00f3ria\u00bb &#8211; D. Jorge Ortiga<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_100329\" aria-describedby=\"caption-attachment-100329\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-100329\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Arquidiocese-de-Braga-300x200.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Arquidiocese-de-Braga-300x200.png 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Arquidiocese-de-Braga.png 543w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-100329\" class=\"wp-caption-text\">D. Jorge Ortiga (Foto: Arquidiocese de Braga)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Diante de um profundo, longo e doloroso evangelho que acab\u00e1mos de escutar, o nosso cora\u00e7\u00e3o e a nossa mente pouco mais podem fazer do que remeter-se ao sil\u00eancio. Este \u00e9 o tempo em que o sil\u00eancio presta homenagem a Cristo. \u00c9 o tempo que inaugura a Semana Santa e que nos confronta com uma dolorosa quest\u00e3o: se a entrada de Jesus em Jerusalem foi triunfal, o que \u00e9 que se passou de errado para, nem passada uma semana, o Rei da Gl\u00f3ria ter sido crucificado? Porque \u00e9 que as multid\u00f5es adoraram Jesus num Domingo e o entregaram na sexta-feira dessa mesma semana?<\/p>\n<p>Gostaria de percorrer este itiner\u00e1rio da paix\u00e3o de Jesus recorrendo a um fio condutor que nos \u00e9 dado pelo evangelista Marcos: as m\u00e3os. As m\u00e3os dos protagonistas que estiveram presentes nos \u00faltimos dias e horas da sua vida e que transparecem atitudes e estados de alma at\u00e9 contradit\u00f3rios. Olhando para as suas m\u00e3os, talvez reconhe\u00e7amos as nossas.<\/p>\n<p>As primeiras s\u00e3o as m\u00e3os delicadas e perfumadas da mulher que parte o vaso de alabastro para derramar o perfume sobre a cabe\u00e7a de Jesus. \u00c9 um gesto delicado, desinteressado e que, todavia, suscita indigna\u00e7\u00e3o entre os presentes. \u201cPara que foi esse desperd\u00edcio de perfume?\u201d. O Mestre n\u00e3o embarca nessa onda e agradece \u00e0 mulher. Ela foi, na verdade, a \u00fanica a reconhecer o Senhorio de Jesus, ungindo-o antecipadamente. As suas m\u00e3os s\u00e3o um gesto de amizade e de beleza. Ensinam-nos que a sociedade deve nortear-se pela gratuidade, altru\u00edsmo e que amizade n\u00e3o \u00e9 apenas para os momentos de festa e de paz. Recordo-me das m\u00e3os que alegremente tudo fazem para que nada falte nas fam\u00edlias. As m\u00e3os que acolhem e acarinham os refugiados e os imigrantes e denuncio a pouca consci\u00eancia do reconhecimento da fraternidade universal que a todos deveria congregar na procura do bem estar.<\/p>\n<p>Poucos dias depois, encontramos as m\u00e3os atarefadas e alegres dos ap\u00f3stolos que prepararam a ceia pascal. Por esta altura sabemos que preparam a \u00faltima ceia, ou seja, o \u00faltimo momento de festa e de alegria que passam com o seu Mestre. Desdobram-se em esfor\u00e7os para transformar aquela sala num espa\u00e7o acolhedor e fazer daquela noite algo memor\u00e1vel. Estas m\u00e3os ensinam-nos que cada momento \u00e9 precioso. Ensinam-nos ainda que a nossa presen\u00e7a pode ser determinante nos \u00faltimos dias das pessoas. Recordo-me, em particular, do drama da eutan\u00e1sia, dos abandonados e de quem vive os seus \u00faltimos dias em casa ou num hospital. As m\u00e3os que lidam com os idosos e doentes, particularmente os terminais e pessoas com defici\u00eancia, com gestos profissionais mas sobretudo amorosos e denuncio o esp\u00edrito economicista de quem n\u00e3o consegue dar tempo e aten\u00e7\u00e3o a quem necessita.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esta festa, o cen\u00e1rio muda num \u00e1pice. M\u00e3os delicadas e alegres transformam-se de imediato em m\u00e3os violentas e armadas com espadas e varapaus. A viol\u00eancia foi desencadeada por um amigo \u00edntimo, Judas, que O entregou com um beijo. S\u00e3o as m\u00e3os que desejam o mal, o sangue e o caos. As mesmas que Jesus encontra no Sin\u00e9drio quando, ao fazer sil\u00eancio, irrita os pr\u00edncipes dos sacerdotes. Foi revestido de p\u00farpura, bateram-lhe, cuspiram-lhe e, por fim, gozaram com ele. Estas m\u00e3os mostram-nos o qu\u00e3o baixo pode descer o Homem. \u00c9 imposs\u00edvel, diante delas, n\u00e3o nos lembrarmos do sil\u00eancio dos inocentes, das v\u00edtimas da guerra na S\u00edria, na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e dos refugiados que morrem ao lutar pela sua sobreviv\u00eancia. S\u00e3o aos m\u00e3os que desfiguram o rosto, causam p\u00e2nico e que esmagam a esperan\u00e7a. As m\u00e3os que praticam a viol\u00eancia, dentro das casas e em locais escondidos, e denuncio a desconsidera\u00e7\u00e3o pelos mais d\u00e9beis ou indefesos.<\/p>\n<p>Escondido por entre os soldados estava Pedro, a quem Jesus confiou a Sua Igreja. As suas m\u00e3os tremem de medo e vergonha. Medo de ser descoberto, acusado e condenado. Vergonha por ter tra\u00eddo o seu Mestre e amigo, por n\u00e3o ser digno da grandeza da miss\u00e3o que lhe fora confiada. As suas m\u00e3os cobrem agora o seu rosto e escondem as l\u00e1grimas da fraqueza. Bem sabemos o quanto a ang\u00fastia e a vergonha podem levar ao desespero. Que o diga Judas que, com as suas pr\u00f3prias for\u00e7as, ata o n\u00f3 da morte. S\u00e3o as m\u00e3os que nos ensinam que seguir Jesus n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. Recordo os m\u00e1rtires dos tempos modernos, os crist\u00e3os perseguidos que d\u00e3o a sua vida pelo Reino de Deus. Os crist\u00e3os medrosos que atrai\u00e7oam o esp\u00edrito do Evangelho e pe\u00e7o a Deus que, ao ritmo das suas l\u00e1grimas, experimentem o arrependimento, a convers\u00e3o de vida e regressem a casa. As m\u00e3os que receiam, por medo ou timidez, sujar-se na luta contra as desigualdades sociais, com tanta expressividade entre n\u00f3s, e denuncio o ego\u00edsmo atroz que anestesia consci\u00eancias.<\/p>\n<p>No penoso momento em que Jesus, j\u00e1 sem for\u00e7as, \u00e9 obrigado a carregar a sua cruz, surgem as m\u00e3os fortes e corajosas de Sim\u00e3o de Cirene. O cireneu nada tem a ver com aquele espet\u00e1culo. Escandaliza-se com a brutalidade com que Jesus \u00e9 tratado e oferece-se para ser um companheiro de jornada. Partilha com Cristo o peso da cruz e alivia o seu fardo. M\u00e3os semelhantes pertencem a Jos\u00e9 de Arimateia. Arrisca, mais tarde, confrontar-se com Pilatos e perguntar-lhe por Jesus. As suas m\u00e3os de compaix\u00e3o envolvem o corpo de Jesus num len\u00e7ol, restituindo-lhe a dignidade roubada pela cegueira do poder. Com estes dois homens aprendemos que a escalada do mal apenas pode ser quebrada com gestos de fraternidade e de hospitalidade. Recordo o clima de guerra fria em que hoje vivemos. Se alguma arma as na\u00e7\u00f5es quiserem construir que seja a \u201carma\u201d da educa\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o para os valores da igualdade, da fraternidade e da paz, e as m\u00e3os mergulhadas nos artif\u00edcios da corrup\u00e7\u00e3o e denuncio processos mesquinhos e indignos que exploram sem consci\u00eancia e sentido a dignidade humana.<\/p>\n<p>Chegados ao lugar do Calv\u00e1rio, somos for\u00e7ados a assistir \u00e0 crucifix\u00e3o de Jesus. Cristo \u00e9 elevado na cruz, exposto aos olhos dos curiosos e abandonado at\u00e9 falecer. Foram as m\u00e3os dos indiferentes que ali o colocaram. Apenas se preocuparam com os bens materiais, com a possibilidade de ficarem com as roupas do inocente. A indiferen\u00e7a infligiu a morte com uma lan\u00e7a. E eis que a natureza reage: as trevas envolvem toda a terra e o v\u00e9u do tempo rasga-se em duas partes de alto a baixo. Nada p\u00f4de fazer Jesus pois as suas m\u00e3os abertas entregaram-se a Deus. Nada p\u00f4de fazer Maria, sua m\u00e3e, Maria Madalena, Maria, m\u00e3e de Tiago e de Jos\u00e9, Salom\u00e9 nem Jo\u00e3o. Apenas conseguiram elevar aos m\u00e3os ao alto e abra\u00e7ar a cruz. Talvez seja esta a li\u00e7\u00e3o mais dolorosa de todas. Nem sempre conseguimos parar o mal, nem sempre h\u00e1 justi\u00e7a, nem sempre controlamos o rumo da Humanidade. E, neste momento, como dizia no in\u00edcio, resta-nos o sil\u00eancio. Recordo as m\u00e3os abertas em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3os fechadas de quem pensa n\u00e3o ter nada para dar e ignora o panorama crescente do sofrimento humano e denuncio aqueles que se instalam na ilus\u00e3o de serem felizes sozinhos.<\/p>\n<p>O relato do evangelista Marcos \u00e9, como podemos ver, uma tentativa de imortalizar algo de significativo sobre o sentido da vida, da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o do Jesus hist\u00f3rico. \u00c9 em momentos como este que se joga a for\u00e7a e a pertin\u00eancia da mensagem do cristianismo para ao mundo. Que crist\u00e3os seremos n\u00f3s se as nossas m\u00e3os forem indiferentes, violentas ou cheias de medo e vergonha? Num tri\u00e9nio pastoral dedicado \u00e0 esperan\u00e7a, pedem-se precisamente m\u00e3os diferentes: abertas, corajosas e delicadas, que devolvam a confian\u00e7a, a serenidade e a alegria de viver a muitas pessoas.<\/p>\n<p>\u00c9, em particular, aos jovens que gostaria de confiar esta miss\u00e3o. Celebramos hoje a XXXIII Jornada Mundial da Juventude e o apelo do Papa Francisco \u00e9 muito claro: \u201cn\u00e3o temas!\u201d. N\u00e3o existe nada pior do que sermos ref\u00e9ns dos nossos medos, de queremos avan\u00e7ar, transformar a realidade, e perdermos a coragem de tentar. O Santo Padre lembra o quanto \u00e9 importante \u201cdar um nome\u201d aos sofrimentos. Este \u00e9 o primeiro passo para eliminar as d\u00favidas ou fantasmas que possam subsistir na cabe\u00e7a. Na verdade, n\u00e3o existem raz\u00f5es para ter medo ou nada fazer. Com os nossos p\u00e9s, somos convidados a percorrer os caminhos da Humanidade sofredora. Com as m\u00e3os reconhecemos que muito pode mudar em favor daqueles que n\u00e3o t\u00eam p\u00e9s para caminhar.<\/p>\n<p>Nas vossas m\u00e3os, estimados jovens, confio o futuro da Igreja. As vossas m\u00e3os s\u00e3o um diamante em bruto. Procurai aproximar-vos de Jesus, reflectir a Palavra de Deus, integrar-vos nas par\u00f3quias e assim polir este diamante. Que as vossas m\u00e3os sejam delicadas e perfumadas como a da mulher que derrama o \u00f3leo. Que sejam atarefadas e alegres para servir a Deus, \u00e0 sociedade e para construir um futuro melhor. Que sejam fortes e corajosas para denunciar os erros da Humanidade, para construir a paz e ajudar a carregar o fardos dos inocentes. Que sejam, por fim, m\u00e3os elevadas ao c\u00e9u para dar gra\u00e7as a Deus e crescer na sabedoria do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o a Deus que este Domingo de Ramos nos toque o cora\u00e7\u00e3o e que seja, para todos n\u00f3s, uma oportunidade para nos prepararmos para a Semana Santa. Temos celebra\u00e7\u00f5es e prociss\u00f5es. H\u00e1 muito para celebrar na interpela\u00e7\u00e3o que a paix\u00e3o e morte de Cristo nos lan\u00e7a. Este \u00e9 o tempo da reconcilia\u00e7\u00e3o e de mudan\u00e7a de vida. Se porventura as nossas m\u00e3os n\u00e3o forem aquelas que desejamos, trabalhemos a convers\u00e3o e a mudan\u00e7a e, acolhendo as interpela\u00e7\u00f5es da Semana Santa, rasguemos horizontes evang\u00e9licos no mundo onde Deus nos colocou para o transformar.<\/p>\n<p>\u2020 Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abAs m\u00e3os que tocam o Rei da Gl\u00f3ria\u00bb &#8211; D. 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