{"id":100287,"date":"2018-03-25T16:15:02","date_gmt":"2018-03-25T16:15:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=100287"},"modified":"2018-03-25T16:15:02","modified_gmt":"2018-03-25T16:15:02","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos-na-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos-na-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa no Domingo de Ramos na Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>\u00c9 ouvindo o brado que recebemos o Esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os: Chegados \u00e0 Semana Maior, entremos verdadeiramente na paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus, verdadeira subst\u00e2ncia da P\u00e1scoa. \u00c9 por excel\u00eancia tempo de gra\u00e7a, uma vez que a Liturgia nos oferece palavras e ritos essenciais, para que realmente nos transformemos com eles. Trata-se de \u201cpassar\u201d com Cristo para o Pai, Trata-se dum caminho a percorrer. Caminho estreito, como nos foi advertido pelo Senhor, que queremos acompanhar sobremaneira nestes dias: \u00abComo \u00e9 estreita a porta e qu\u00e3o apertado \u00e9 o caminho que conduz \u00e0 vida, e como s\u00e3o poucos os que o encontram!\u00bb (Mt 7, 14).<\/p>\n<p>\u00c9 certo que hoje participamos no j\u00fabilo daquele dia em Jerusal\u00e9m, quando Jesus foi aclamado com ramos e hossanas. Como os jovens de ent\u00e3o, tamb\u00e9m os de hoje O aclamar\u00e3o especialmente. Mas ai de n\u00f3s se nos ficamos por a\u00ed, nessa alegria imediata, que geralmente dura pouco.<\/p>\n<p>Jesus dissera e fizera coisas admir\u00e1veis, e muitos esperavam que o antigo reino de David regressasse com ele, porventura mais glorioso ainda. Seria assim e seria f\u00e1cil. Rapidamente se desenganaram, quando tudo refluiu para a verdade aut\u00eantica de Jesus, como a apresentaria dias depois diante de Pilatos e entre apupos da multid\u00e3o. Nem sabemos quantos dos que lhe levantaram ramos se juntaram depois aos que lhe levantaram a cruz\u2026 Ilus\u00f5es geram desilus\u00f5es, pseudoconvers\u00f5es d\u00e3o grandes abandonos.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os: A P\u00e1scoa de Jesus ou se leva a s\u00e9rio ou redunda em nada, no que a n\u00f3s respeita. Jesus nunca recuou um passo no caminho que abriu. Nunca aligeirou a proposta de seguimento total. Aproximou-se de todos, em especial dos que ningu\u00e9m queria, atacados pelas lepras do corpo ou da vida. Mas para os tirar da\u00ed, com convers\u00f5es radicais ao Evangelho que propunha.<\/p>\n<p>Assim connosco, sempre e tamb\u00e9m agora. Especialmente quando uma certa habitua\u00e7\u00e3o ao calend\u00e1rio \u201ccrist\u00e3o\u201d lhe reduz o significado e o dilui em antigos ou requentados paganismos. Quando tal acontece, e se usa e abusa do nome de Cristo para lhe anular a cruz, nem acontece P\u00e1scoa nem se mudam as vidas. Usando um vulgarismo, ficamos \u201ccada vez mais na mesma\u201d, presos a equin\u00f3cios primaveris, distra\u00e7\u00f5es variadas e especialidades da \u00e9poca. Mesmo quando sejam coisas relativamente boas, s\u00e3o absolutamente insuficientes, para n\u00f3s e de n\u00f3s para os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos chamar-lhes sonol\u00eancia espiritual. Tamb\u00e9m atingiu os pr\u00f3prios disc\u00edpulos, mesmo os que tinham estado mais perto de Jesus, do que fizera e dissera. Na hora definitiva, pediu-lhes companhia e puseram-se a dormir. Lembremos o trecho, pois \u00e9 tamb\u00e9m de n\u00f3s que se trata: Jesus chega ao Gets\u00e9mani e pede a Pedro, Tiago e Jo\u00e3o para ficaram ali e atentos. &#8211; O que sucedeu depois? \u00abFoi ter com os disc\u00edpulos e encontrou-os a dormir\u2026\u00bb<\/p>\n<p>&#8211; O que sucedera entretanto? Precisamente o di\u00e1logo essencial de Jesus com o Pai, o \u00e2mago da ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 propriamente dita, como nos manda rezar no Pai Nosso: \u00abSeja feita a vossa vontade assim na terra como no c\u00e9u\u00bb. Recordemos o trecho: \u00abAdiantando-se um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse poss\u00edvel, se afastasse dele aquela hora: Jesus dizia: \u201cAb\u00e1, Pai, tudo Te \u00e9 poss\u00edvel: afasta de mim este c\u00e1lice. Contudo, n\u00e3o se fa\u00e7a o que Eu quero, mas o que Tu queres\u201d.\u00bb<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os: Quanto rezarmos assim, em cada momento e circunst\u00e2ncia, passamos com Jesus para o Pai e temos P\u00e1scoa. Quando o n\u00e3o fizermos, dormimos como os disc\u00edpulos, hoje como ontem.<\/p>\n<p>Reparemos que Jesus diz \u201cAb\u00e1\u201d, express\u00e3o da sua l\u00edngua materna, referida a um Pai de ternura e intimidade. Assim mesmo o sabia e sentia, o Jesus do Gets\u00e9mani, como em toda a sua vida terrena. Disse noutro passo evang\u00e9lico: \u00abAquele que me enviou est\u00e1 comigo. Ele n\u00e3o me deixou s\u00f3\u2026\u00bb (Jo 8, 29). E ainda: \u00abEu e o Pai somos Um\u2026 Ficareis a compreender que o Pai est\u00e1 em mim e Eu no Pai\u00bb (Jo 10, 30.38). O segredo de Jesus, o que o leva por diante no seu prop\u00f3sito de salvar a humanidade que assume com a divindade que oferece, \u00e9 a comunh\u00e3o absoluta do c\u00e1lice que o Pai lhe d\u00e1 a beber, do prop\u00f3sito que traz para cumprir.<\/p>\n<p>Sim, v\u00e3o tirar-lhe brutalmente a vida. Mas, tamb\u00e9m sim, j\u00e1 a queria dar. Como dissera: \u00ab\u00c9 por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ningu\u00e9m ma tira, mas sou Eu que a ofere\u00e7o livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal \u00e9 o encargo que recebi de meu Pai\u00bb (Jo 10, 17-19).<\/p>\n<p>No horto Jesus p\u00f4de estremecer por causa do sofrimento que a\u00ed vinha, mas nunca desistiu de prosseguir at\u00e9 ao fim. \u00c9 esta a qualidade da vida divina: Inteira partilha de tudo o que se \u00e9, entre o Pai e o Filho no amor do Esp\u00edrito. Foi esta a tradu\u00e7\u00e3o que teve na cruz: O Pai entrega o Filho a cada um de n\u00f3s, o Filho retribui-se por n\u00f3s na entrega ao Pai. E o Esp\u00edrito nos incluir\u00e1 nesse lance de amor.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os: N\u00e3o nos pare\u00e7a estranho o que \u00e9 afinal a verdadeira lei da vida, que apenas se garante na entrega de si. E sempre com Cristo, em qualquer Gets\u00e9mani que nos surja, digamos que sim e sigamos em frente. Acaba por ser mais uma ocasi\u00e3o de crescimento, com Deus para os outros e com todos para Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 esta a P\u00e1scoa que Cristo nos oferece. Hoje mesmo, nas circunst\u00e2ncias e vicissitudes da vida pr\u00f3pria e alheia, n\u00e3o nos alheemos de n\u00f3s nem dos outros. Bem pelo contr\u00e1rio, entreguemo-nos sempre, entreguemo-nos mais no sentido do bem.<\/p>\n<p>N\u00e3o o conseguiremos sozinhos. A seguran\u00e7a est\u00e1 em Deus, que nos sustenta. Cristo dirige-nos as palavras que dirigiu a Sim\u00e3o (Pedro) e aos outros: \u00abSim\u00e3o, est\u00e1s a dormir? N\u00e3o pudeste vigiar uma hora? Vigiai e orai, para n\u00e3o entrardes em tenta\u00e7\u00e3o. O esp\u00edrito est\u00e1 pronto, mas a carne \u00e9 fraca.\u00bb<\/p>\n<p>&#8211; Como estamos agora? Podemos e devemos perguntar-nos ao iniciar a Semana Santa. \u201cSanta\u201d quer dizer de Deus, preenchida de ora\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o espiritual. Que nada nos distraia do essencial, que \u00e9 o seguimento de Cristo, da Ceia at\u00e9 ao Horto, do Horto at\u00e9 \u00e0 Cruz. A\u00ed lhe ouviremos por fim o grande brado com que expirou, ou seja, deu o Esp\u00edrito. O brado que ressoa em todas as cruzes deste mundo e que teremos de acolher, no realismo dos G\u00f3lgotas de ontem e de hoje. \u00c9 ouvindo o brado que recebemos o Esp\u00edrito, para ressuscitar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 25 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":100288,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343,308],"class_list":["post-100287","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100287"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100287\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/100288"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}