{"id":10012,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/catolicos-com-pluralidade-de-opcoes-politicas\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"catolicos-com-pluralidade-de-opcoes-politicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catolicos-com-pluralidade-de-opcoes-politicas\/","title":{"rendered":"Cat\u00f3licos com pluralidade de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas"},"content":{"rendered":"<p>O pr\u00f3ximo acto eleitoral, a que todos os cidad\u00e3os s\u00e3o chamados, reveste-se de particular import\u00e2ncia num tempo de crise como o que estamos a viver.  Como recordavam recentemente os nossos Bispos, \u201cos problemas que o Pa\u00eds sente n\u00e3o se resumem \u00e0 presente crise pol\u00edtica; esta \u00e9, talvez e apenas, o seu efeito e um dos seus sintomas. E por isso a etapa democr\u00e1tica que agora come\u00e7a n\u00e3o pode limitar-se a resolver uma crise pol\u00edtica, mas deve enfrentar, com serenidade e lucidez, os problemas de fundo do pa\u00eds, apresentando para eles solu\u00e7\u00f5es cred\u00edveis e vi\u00e1veis a serem escolhidas pelo voto dos portugueses\u201d. Destas palavras deduz-se n\u00e3o s\u00f3 a necessidade de todos participarmos com a for\u00e7a do voto, mas tamb\u00e9m a de dar o nosso contributo para a escolha das solu\u00e7\u00f5es mais cred\u00edveis e vi\u00e1veis. Durante muito tempo foi-se difundindo a ideia de que os crist\u00e3os deviam cerrar fileiras mesmo no campo pol\u00edtico. A pr\u00f3pria Doutrina Social da Igreja se apresentava como uma terceira via \u201centalada\u201d entre as propostas liberais e marxistas. Bastar\u00e1 recordar a Rerum Novarum de Le\u00e3o XIII que, depois de fazer uma cr\u00edtica sistem\u00e1tica da solu\u00e7\u00e3o socialista (marxismo) e menos sistem\u00e1tica mas n\u00e3o menos contundente do liberalismo, apresenta a verdadeira solu\u00e7\u00e3o, aquela que a Igreja prop\u00f5e. Dessa atitude surgiu a democracia crist\u00e3, traduzida em partidos pol\u00edticos espalhados por muitas na\u00e7\u00f5es europeias. Contudo, Jo\u00e3o Paulo II veio clarificar a situa\u00e7\u00e3o e acabar com os equ\u00edvocos: \u201cA Doutrina Social da Igreja n\u00e3o \u00e9 uma \u201cterceira via\u201d entre capitalismo liberal e colectivismo marxista, nem sequer uma poss\u00edvel alternativa a outras solu\u00e7\u00f5es menos radicalmente contrapostas&#8230; O seu objectivo principal \u00e9 interpretar estas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensino do Evangelho\u201d. Por isso, a Igreja \u201cn\u00e3o prop\u00f5e sistemas ou programas econ\u00f3-micos e pol\u00edticos, nem manifesta prefer\u00eancias por uns ou por outros, contanto que a dignidade do homem seja devidamente respeitada e promovida e a ela pr\u00f3pria seja deixado o espa\u00e7o necess\u00e1rio para desempenhar o seu minist\u00e9rio no mundo\u201d (SRS 41). Portanto \u00e0 Doutrina Social da Igreja n\u00e3o compete dar solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas definir crit\u00e9rios \u00e9ticos capazes de n\u00e3o s\u00f3 interpretar mas tamb\u00e9m avaliar a realidade na \u201csua conformidade ou descon-formidade com as linhas do Evangelho\u201d.  A media\u00e7\u00e3o concreta tem de ser feita pelos crist\u00e3os empenhados na constru\u00e7\u00e3o da sociedade. Como \u00e9 sabido, geralmente para cada problema h\u00e1 v\u00e1rias respostas t\u00e9cnicas. Perante esta realidade diversificada, t\u00edpica das sociedades democr\u00e1ticas, aos crist\u00e3os apresenta-se uma pluralidade de escolhas, que incluem todas as solu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o eticamente leg\u00edtimas: \u201cNas diferentes situa\u00e7\u00f5es concretas e tendo presentes as solidariedades vividas por cada um, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer uma variedade leg\u00edtima de op\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Uma mesma f\u00e9 crist\u00e3 pode levar a assumir compromissos diferentes\u201d (OA 50). O crist\u00e3o, porque cidad\u00e3o, confronta-se ent\u00e3o n\u00e3o apenas com a sua consci\u00eancia crist\u00e3, \u201cque o deve guiar sempre\u201d tanto na realidade espiritual como temporal (AA 5), mas tamb\u00e9m com a sua sensibilidade para aquele problema concreto e com as suas solidariedades.  Porque esta situa\u00e7\u00e3o de pluralismo foi e ainda \u00e9 hoje, por vezes, motivo de algum receio, o receio da divis\u00e3o frente a um mundo de problemas que urge atacar com efic\u00e1cia, o Conc\u00edlio deixou a receita: \u201cMuitas vezes, a concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da vida inclin\u00e1-los-\u00e1 para determinada solu\u00e7\u00e3o, em certas circunst\u00e2ncias concretas. Outros fi\u00e9is, por\u00e9m, com n\u00e3o menos sinceridade, pensar\u00e3o diferentemente acerca do mesmo assunto, como tantas vezes acontece, e legitimamente. Embora as solu\u00e7\u00f5es propostas por uma e outra parte, mesmo independentemente da sua inten\u00e7\u00e3o, sejam por muitos facilmente vinculadas \u00e0 mensagem evang\u00e9lica, devem no entanto, lembrar-se de que a ningu\u00e9m \u00e9 permitido, em tais casos, invocar exclusivamente a favor da pr\u00f3pria opini\u00e3o a autoridade da Igreja. Mas procurem sempre esclarecer-se mutuamente num di\u00e1logo sincero, salvaguardando a caridade rec\u00edproca e atendendo, antes de mais, ao bem comum\u201d (GS 43). Jo\u00e3o Paulo II vai mais longe. Alerta-nos para a tenta\u00e7\u00e3o do desencanto com a pol\u00edtica ou com os pol\u00edticos. Nada justifica o absentismo quer nos actos eleitorais quer nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias e estruturas que possibilitam a participa\u00e7\u00e3o activa dos cidad\u00e3os: \u201cAs acusa\u00e7\u00f5es de arrivis-mo, idolatria de poder, ego\u00edsmo e corrup\u00e7\u00e3o que muitas vezes s\u00e3o dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido pol\u00edtico, bem como a opini\u00e3o muito difusa de que a pol\u00edtica \u00e9 um lugar de necess\u00e1rio perigo moral, n\u00e3o justificam minimamente nem o cepticismo nem o absentismo dos crist\u00e3os pela coisa p\u00fablica\u201d (ChL 42). O projecto social crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um projecto concreto. \u00c9 antes uma preocupa\u00e7\u00e3o permanente e constante pelo bem comum, uma responsabilidade solid\u00e1ria por todos, o empenho sistem\u00e1tico na constru\u00e7\u00e3o da \u201ccidade nova\u201d. De novo Paulo VI nos ajuda a perceber o que nos \u00e9 pedido: \u201cTorna-se urgente reconstruir \u00e0 escala da rua, do bairro ou do aglomerado ainda maior, aquela rede social em que o homem possa satisfazer as necessidades da sua personalidade&#8230; Construir a cidade, lugar de exist\u00eancia dos homens e das suas comunidades ampliadas, criar novos modos de vizinhan\u00e7a e de rela\u00e7\u00f5es, descortinar uma aplica\u00e7\u00e3o original da justi\u00e7a social, assumir, enfim, o encargo deste futuro colectivo que se pr\u00e9-anuncia dif\u00edcil \u00e9 uma tarefa em que os crist\u00e3os devem participar. A esses homens, amontoados numa promiscuidade urbana que se torna intoler\u00e1vel, \u00e9 necess\u00e1rio levar uma mensagem de esperan\u00e7a, mediante uma fraternidade vivida e uma justi\u00e7a concreta\u201d (OA 11-12). Para a realiza\u00e7\u00e3o de uma cidade nova (dimens\u00e3o \u00e9tica) h\u00e1 muitos caminhos (dimens\u00e3o t\u00e9cnica). Cada cidad\u00e3o deve optar por aquele que melhor se coaduna com a sua leitura da realidade. O que n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo a ningu\u00e9m \u00e9 ficar parado \u00e0 espera da solu\u00e7\u00e3o ideal, porque as solu\u00e7\u00f5es ideais n\u00e3o existem neste mundo. E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo ficar pela mera den\u00fancia inconsequente. Isto \u00e9, n\u00e3o podemos ficar-nos pelo ainda n\u00e3o do Reino, mas devemos, sobretudo, valorizar o j\u00e1 do Reino de Deus, isto \u00e9, aqueles valores e potencialidades j\u00e1 presentes mesmo que nem sempre sejam evidentes (EN 70).  Este exerc\u00edcio de cidadania e de amor ao pr\u00f3ximo obriga, por um lado, a combater a ideia de que a pol\u00edtica \u00e9 um campo de \u201cnecess\u00e1rio perigo moral\u201d, pois esta \u00e9 \u201capenas\u201d mais uma actividade humana, tamb\u00e9m ela limitada e carregada de imperfei\u00e7\u00f5es, e, por outro, a saltar para o terreno do jogo pol\u00edtico e a\u00ed conjugar esfor\u00e7os e apresentar solu\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o sempre renovada de um mundo que ser\u00e1 sempre provis\u00f3rio, mas no qual todos devem poder viver com a melhor qualidade de vida poss\u00edvel.  Jos\u00e9 Dias da Silva 6 de Fevereiro de 2005 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00f3ximo acto eleitoral, a que todos os cidad\u00e3os s\u00e3o chamados, reveste-se de particular import\u00e2ncia num tempo de crise como o que estamos a viver. 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