Semana Santa com o cardeal Tolentino #3 – A fé no drama da paixão: a de Jesus e da atualidade."Muitas vezes pensamos que a fé é uma coisa adquirida, uma espécie de assentimento da alma que permanece intocado, sem variações, ou então que é um bem que nos foi transmitido e que transmitiremos a outros; ou então é um elemento de cultura que nós herdamos, como se a fé nunca atravessasse o drama, como se a fé não fosse o que ela é: um palco onde, no estremecimento, o sim ou o não se decidem, o seguimento ou a recusa de Jesus podem e estão sempre a acontecer. Por isso, é importante pensar a fé a partir da categoria do drama. Porque ela é isso.Se a fé é uma itinerância, uma espécie de nomadismo interior, um caminho que fazemos no tempo, é verdade que a fé é atravessada por tantas interrogações, tantos dilemas tantas crises. E nada do humano é indiferente à fé.Nós vivemos esta Páscoa com um nó na garganta. Vivemos sentindo a provisoriedade radical da nossa humanidade. Sentimo-nos todos precários.As nossas lágrimas, o nossa fragilidade, o nosso desejo, aquilo que não vamos conseguir fazer, as liturgias em que não vamos conseguir participar, essas são as nossas ‘precárias’. Traduzem a extensa precariedade da nossa vida de que agora temos maior consciência. E, ao mesmo tempo, são como incenso que se eleva na tarde, são como a palavra dita diante do Altíssimo. São como a oferta, o dom de nós mesmos, que nós colocamos perante o silêncio amoroso de Deus.Deus está presente, manifesta-se, atua nos limites da própria história, nos nós cegos em que parece que a história é irresolúvel, que não tem uma solução. Para quem crê, Deus não está fora da história, porque Ele é o crucificado. Ele é o primeiro a estender a sua solidariedade redentora a todos os homens e a todas as mulheres, em qualquer circunstâncias. Jesus é o primeiro a atender, a escutar, a chegar, a abraçar, a conduzir, a confortar… (D. José Tolentino Mendonça)

Publicado por Agência Ecclesia em Terça-feira, 7 de abril de 2020

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