04 - Editorial:

   Tolentino Mendonça

06 - Foto da semana

07 - Citações

08 - Nacional

14 -Opinião:

    D. José Cordeiro

18 - A semana de...

     José Carlos Patrício

    Património e Turismo

 

40- Internacional

46 - Multimédia

48 - Estante

50-  Agenda

52 - Por estes dias

53 - Programação Religiosa

54  - Minuto YouCat

56 - Liturgia

58 - Fundação AIS

60 -Opinião:

    Manuel de Lemos
64 - Lusofonias

Foto da capa: Agência ECCLESIA

Foto da contracapa:  Agência ECCLESIA

 

 

 

 

AGÊNCIA ECCLESIA 
Diretor: Paulo Rocha  | Chefe de Redação: Octávio Carmo
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Luís Filipe Santos,  Sónia Neves
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Opinião

 

 

 

 

Uma oração histórica

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Igreja sem medo do digital

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Turismo religioso e património

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Tolentino Mendonça|Padre Tony Neves | Manuel de Lemos

 

Brasil e Futebol 

José Tolentino Mendonça

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

 

É um Brasil renitente aquele que acolhe o Mundial de Futebol. As construções faraónicas de novos estádios, mesmo em regiões do país que dificilmente poderão tirar partido e sustentar essas novas estruturas, vieram colocar em evidência, e de forma dolorosa, o desacerto das prioridades políticas. Não é que o Brasil não seja o país do futebol, e a modalidade não galvanize o entusiasmo das populações. Aliás, muitos observadores  garantem que quando a seleção nacional entrar em campo toda a nação imensa estará com eles. Mas há um sentimento social de indisfarçável desconforto: mesmo se é verdade que o Brasil cresceu muito na última década e que há uma ampliação gigantesca da chamada classe média (diz-se que são vendidos no Brasil cerca de dez mil novos automóveis por dia), persistem problemas de fundo na saúde, na educação, no urbanismo, na segurança. Por exemplo, a importante Conferência dos Religiosos do Brasil vai aproveitar o Mundial para fazer uma campanha em grande escala contra o tráfico humano, nas suas diferentes formas.

Mas o Mundial de Futebol é, não devemos esquecer, uma grande festa do desporto e da cultura. A acompanhar a arte das melhores 32 seleções de futebol do planeta estará um número astronómico de espectadores em todo o mundo. E vibrando e sofrendo com a festa das quatro linhas, há alguma coisa

 

 

 

 

 

 

 da essência pura do humano que emerge e irmana. É interessante o que nos é recordado por dois escritores maiores como Vargas Llosa e Albert Camus. O primeiro defende que “o futebol é o ideal de uma sociedade perfeita: poucas regras claras, simples, que garantem a liberdade e a igualdade dentro de campo, com a certeza de que haverá 

 

sempre espaço para a competência e o brilho pessoal”. E Camus acrescenta que para lá dessa justeza organizativa há ainda outra coisa a ressalvar. Esta: “o conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol”. Que vença, por isso, o melhor e que nos convença por uma explosão límpida de humana alegria. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
"Adiar por mais tempo um entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajetória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia é um risco pelo qual os portugueses poderão vir a pagar um preço muito elevado", Cavaco Silva, na sessão solene das comemorações do 10 de Junho, in Rádio Renascença.
 
“Não vamos deslumbrados para o Brasil pelo resultado volumoso e pela boa exibição. Não somos a melhor seleção do Mundo nem somos tão maus quanto nos quiseram pintar após o empate frente à Grécia", Paulo Bento no final do jogo de preparação para o Mundial, entre Portugal e a Irlanda, in jornal Record, 11.6.2014
 
«O Sindicato dos Jornalistas considera que os despedimentos e a degradação das condições de trabalho não devem – não podem – ser a única solução das administrações para resolver as dificuldades económicas”, Sindicato dos Jornalistas sobre a decisão do grupo Controlinveste de despedir 160 trabalhadores, 64 dos quais jornalistas, in TSF, 11.10.2014
 

 

Media: Igreja tem de superar «receios»
do mundo digital

As Comissões das Conferências Episcopais de Portugal e Espanha que coordenam o setor das Comunicações Sociais defenderam a necessidade de superar “receios” em relação à presença católica no mundo digital. “Na Igreja, temos de superar todos os receios da nossa presença no mundo digital, estar conscientes de que a nossa mensagem é uma Pessoa, Deus que se faz homem para nos salvar. Temos de estar presentes com esta originalidade, em diálogo com o mundo e atitude de serviço”, referem os participantes do encontro ibérico no final de três dias de trabalho em Alfragide, arredores de Lisboa, nas conclusões da iniciativa, enviadas à Agência ECCLESIA.

A Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais de Portugal e a Comisión Episcopal de Medios de Comunicación Social de Espanha refletiram sobre o tema “Rede de pessoas”. Em análise esteve a mensagem do Papa Francisco para o 48º Dia Mundial das

 

 Comunicações Sociais, onde desafia a criar “uma autêntica cultura do encontro”.

D. Ginés García Beltrán, presidente da comissão episcopal espanhola, disse à Agência ECCLESIA que a comunicação é “um desafio para a Igreja”. “Foi assim no século I e continua a sê-lo hoje: a Igreja existe para evangelizar, portanto, todas as novas tecnologias são uma exigência, sabendo que o centro não está na tecnologia, mas nas pessoas”, precisa.

O responsável realça que a Igreja tem de estar “próxima” do ser humano, usando os meios de comunicação que tem ao seu dispor. “A Igreja tem de pensar nas tecnologias de hoje e nas que virão amanhã, porque não estão fechadas, criam impacto, geram cultura”, conclui o bispo de Guadix.

D. Pio Alves, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, referiu por sua vez que é necessário “criar sensibilidade” e ajudar as dioceses católicas a

 

 

 

 melhorar o trabalho neste setor. “Os recursos são importantes, mas muito mais importante – partindo da mensagem do Santo Padre e daquilo que é a sua prática - é o modo como cada um de nós se assume como comunicador e procura cultivar a proximidade”, afirma o bispo auxiliar do Porto.

As conclusões do encontro sublinham que “a comunicação 

 

da Igreja tem de se basear na verdade e na autenticidade, força vital que vai além da tecnologia”.

“Por último, para além de transmitir o nosso agradecimento a todos os jornalistas pela sua entrega ao serviço da comunicação, encorajamo-los a propiciar uma autêntica cultura do encontro que coloque as pessoas no centro do seu trabalho”, conclui o documento.

 

 

Diocese do Funchal foi criada há 500 anos

A Diocese do Funchal, que chegou a ser a maior do mundo, celebra hoje o 500.º aniversário da sua criação, no dia em que o Papa Leão X assinou a bula ‘Pro Excelenti Praeminentia’. O programa começou no claustro da igreja do Colégio (Funchal) com a apresentação da medalha e carteira de selos postais, comemorativas dos 500 anos da Diocese, seguindo-se ao meio-dia o toque dos sinos nas igrejas da Madeira, em sinal de festa.

Às 18h30, o patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente, vai presidir na catedral à Missa que assinala a data.

A Diocese do Funchal foi criada pelo Papa Leão X, a pedido de D. Manuel I, no dia 12 de junho de 1514, e a 31 de janeiro de 1533 o Papa Clemente VII elevou o bispado do Funchal a arcebispado, dando-lhe um território, o mais vasto dado até hoje a uma diocese, todas as terras ‘descobertas e por descobrir’ pelos navegadores portugueses.

O Vaticano divulgou este sábado a carta de nomeação do 

 

cardeal Fernando Filoni como enviado especial do Papa para este 500.º aniversário, na qual Francisco destaca a dimensão histórica do território diocesano, que no tempo das descobertas portuguesas chegou a ter jurisdição sobre “terras brasileiras”.

O cardeal Filoni chega à Madeira na sexta-feira e vai presidir no domingo (16h00) à Missa conclusiva da ‘Semana Jubilar’ promovida pela Igreja Católica na Madeira,no Estádio dos Barreiros.

Durante estes dias vão passar pelo Funchal o núncio apostólico (embaixador da Santa Sé), alguns bispos de Portugal e de dioceses que estiveram ligadas à Madeira, como o arcebispo de São Salvador da Baía (primaz do Brasil), Santiago e Mindelo (Cabo Verde) e São Tomé e Príncipe.

 

 

 

Presidente condecora missionário comboniano na Colômbia

O presidente da República Portuguesa condecorou o irmão José Manuel Duarte, missionário comboniano na Colômbia, com o grau de comendador da Ordem do Mérito. Segundo a página oficial dos Combonianos em Portugal, o irmão José Manuel é a “alma de um grupo de voluntários que acompanha 180 detidos, cerca de 300 sem-abrigo e 3500 famílias deslocadas pelo conflito das FARC em Medellín, a segunda cidade da Colômbia”.

O religioso é uma das 30 personalidades das comunidades portuguesas e cidadãos estrangeiros que são este ano distinguidas por Aníbal Cavaco Silva, por ocasião do Dia de Portugal. O irmão José Manuel Duarte trabalhou nos bairros marginalizados da cidade de Bogotá, onde chegou a ser ameaçado pelos grupos armados; é ainda um dos fundadores da Casa Portuguesa na Colômbia.

O religioso de 48 anos, natural da Lourinhã, é Missionário Comboniano desde 1995; fez a sua formação em Bogotá, na Colômbia, entre 1995 e 1998. Depois de trabalhar cinco

 

anos em Portugal, voltou à Colômbia em 2002.

A Ordem do Mérito destina-se a “galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da coletividade”.

As condecorações “serão oportunamente entregues” junto das embaixadas e consulados dos respetivos países, em cerimónias que podem decorrer a 10 de junho ou mais tarde. As cerimónias nacionais do Dia de Portugal decorreram este ano na Guarda, onde Cavaco Silva condecorou várias personalidades, incluindo o antigo reitor da Universidade Católica Portuguesa, Manuel Braga da Cruz, distinguido com a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

 

 

 

 

A Agência ECCLESIA escolhe sete acontecimentos que marcaram a atualidade eclesial portuguesa nos últimos dias, sempre atualizados em www.agencia.ecclesia.pt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lisboa: Milhares de pessoas celebram Santo António

 

 

 

Francisco Sarsfield Cabral: Prémio Árvore da Vida

 

O marinheiro e o sonho

D. José Cordeiro

Bispo de Bragança-Miranda

 

Na feliz e inesquecível visita pastoral a terras de Mogadouro que tive a graça de realizar, senti a firmeza da fé, a alegria da esperança e a generosidade da caridade na porção do povo de Deus que me está confiado. A visita pastoral é a alma da missão de um Bispo. Do programa habitual nas visitas pastorais constitui parte integrante: a palavra, a liturgia, a caridade, a visita aos doentes, a visita aos mais idosos, o contacto com as instituições, a oração nas igrejas, nos santuários, nas capelas e nos cemitérios, a celebração da Eucaristia, a confirmação da fé no Crisma e nos outros sacramentos, o encontro com as pessoas, as famílias, os movimentos e os grupos cristãos e cívicos.

Mogadouro é terra de José e de Henrique Trindade Coelho e de alguns membros muito ilustres do Presbitério no passado e no presente, como Manuel Pinto, SJ, Belarmino Afonso, Telmo Ferraz, Manuel Trindade e tantas outras respostas positivas à vocação do sonho, da Paz e do Bem.

Num sábado à noite, na casa da cultura, o Município de Mogadouro teve a amabilidade de me convidar e pude presenciar com alegria a estreia da peça de teatro «O marinheiro cansou-se de sonhar». Trata-se de uma adaptação do centenário do drama estático «o marinheiro» de Fernando Pessoa. No palco de nobre simplicidade estão três jovens veladoras. As três donzelas velam de noite à luz de três círios e de um resto de luar, 

 

 

 

espreitando um pedaço de mar.

A Associação cultural para o estudo e investigação da terra transmontana (ACEITTA) leva à cena esta peça de teatro, que o autor nunca viu representada, e explica: «É importante nesta versão, refletir sobre o caráter deste sentimento tão nosso, a espera… A angústia no ato da espera. O que parte e não volta, o eterno partir, cheio de uma saudade tão lusa.  A procura 

 

experimental, tão presente nesta adaptação, aparece-nos em forma de sonho. Espécie de névoa, uma espera que se move na construção desse sonho. Sonho, que insiste em voltar com forma de mãos.  O chorar tão próximo pelo que parte, em uma espera sufocante e dolorosa. Todo este país é muito triste, na voz daquela mulher.  Sempre o voltar, mas o voltar ao sonho, esse lugar onde habita essa mulher feita de três ramos.

 

 

 

Ramos de uma árvore, obrigada a crescer com Dezembros na Alma. A sonoridade constrói uma realidade paralela, um sonho povoado de ambientes sonoros, que a cada momento nos fazem sentir os vazios da realidade. A realidade sonora, existente neste sonho, faz-nos entender de modo diferente a construção de cada imagem. O amor escorre entre as montanhas e procura o mar para se refletir no olhar destas três mulheres, unidas em uma única forma. A forma que o mar permite, essa que conhecemos tão bem, as nossas próprias ondas interiores. A incessante procura de fazer ser nossa, uma outra pátria. Num dia de chuva este marinheiro cansou-se de sonhar».

A fé da Igreja transmite a barca como a imagem da própria Igreja, o lugar onde o marinheiro ensina e dá sinais da Esperança no caminho. A barca é lugar da pregação, do anúncio da Palavra, da celebração da fé e do testemunho do amor. E o marinheiro nunca se cansa de sonhar e de amar para salvar.

Esperar pode gerar angustia.

 

 Um dia escreveu Tonino Guerra em ‘o livro das igrejas abandonadas’: «eu abandono Roma, os camponeses abandonam a terra, as andorinhas abandonam a minha aldeia, os fiéis abandonam as igrejas, os moleiros abandonam os moinhos, os montanheses abandonam os montes, a graça de Deus abandona os homens, Alguém abandona tudo». Todavia, Deus não nos abandona. É o mesmo F. Pessoa que diz com humor em Orpheu: «De eterno e belo há apenas o sonho. Por que estamos nós falando ainda?  Ora isso mesmo é que eu ia perguntar a essas senhoras… ».

Somos chamados a viver e a testemunhar uma cultura de confiança, como nos interpela um hino da Liturgia: «se me colhe a tempestade e Jesus vai a dormir na minha barca, nada temo porque a Paz está comigo».

O marinheiro ainda que pareça cansado do sonho de viver e dar a vida, Ele está sempre connosco até ao fim do fim. 

 

 

O Papa e o mundial

José Carlos Patrício,

Agência ECCLESIA

 

O mundo atual parece incapaz de olhar para uma ação sem segundas intenções, como algo gratuito que não espera outra recompensa que não o bem do outro.

Quando a esmola é grande, o pobre desconfia, já diz o ditado popular, nada pode ser feito sem uma agenda, sem um qualquer propósito escondido, sem uma contrapartida.

Talvez por isso ainda exista desconfiança à volta do pontificado do Papa Francisco, basta navegar um pouco pela net e são várias as teorias da conspiração, mais parecem tramas retirada de uma obra de Dan Brown.

Um Papa que pede que rezem por ele? Que pede humildade ao clero? Que quer reformar a Cúria? Que pede contas ao Banco do Vaticano?

Um Papa que acolhe homens e crianças no seu papamóvel? Que entra numa favela, que lava os pés aos reclusos e que quer pastores com o cheiro das suas ovelhas?

Hum, mas qual é que é a jogada? Agora até já levou ao Vaticano os líderes de Israel e da Palestina para rezarem juntos pela paz.

E a forma carinhosa como fala dos muçulmanos e judeus? Tudo operações de charme? Só pode haver aqui um plano “iluminado” para tentar unir todas as religiões debaixo da mesma bandeira.

Depois de uma economia global e de um governo global, uma religião global, com o Papa argentino a funcionar como suposto

 

peão de uma elite mundial em busca de uma nova ordem.

Reforço, porque é que é assim tão estranho um homem, ainda por cima um homem de Deus, querer simplesmente fazer o bem?

Por vezes, os milagres, as coisas boas acontecem sem fazerem barulho, e nós estamos tão concentrados no ruído que os esquecemos de apreciar. E quando finalmente nos apercebemos, já passaram, já aconteceram.

No caso do Papa Francisco, pergunto-me se não caímos no risco de fazer o mesmo. Sugestão? Apreciemos um homem bom a tentar fazer o bem. Simplesmente.

O Mundial de Futebol começa esta quinta-feira no Brasil - mais uma vez, o país esquece as suas feridas e divisões e une-se todo em torno da seleção 

 

nacional e da esperança de um grande resultado.

Durante um mês os jornais vão deixar de falar em défices, troikas e resgates, em impostos e medidas adicionais de austeridade.

Vão multiplicar-se as reportagens a volta da equipa das quinas, desde o roupeiro ao cozinheiro ou a quem conduz o autocarro.

Paulo Bento vai ser o nosso Executivo e Ronaldo o primeiro-ministro, e deixem lá os brasileiros com as suas manifestações que a bola agora vai rolar.

É curioso como o futebol tem este efeito de apagar todos os problemas... Pelo menos enquanto a nossa equipa ganha e ainda existe perspetiva de festa.

Por isso, força Portugal!

 

 

Potenciar parte turística
respeitando a missão de culto

 

Pedro Matias, gestor de projetos no departamento de desenvolvimento e inovação do Turismo de Portugal, explica parceria com a Igreja Católica que levou ao lançamento de dois roteiros sobre os caminhos marianos e de Santiago
 

Agência ECCLESIA (AE) – Como é que começou este projeto e quais são os seus principais objetivos?

Pedro Matias (PM) – Este projeto surge no âmbito de um produto turístico estratégico, determinante na nossa oferta turística, que é o touring cultural e religioso.

Esta vertente religiosa, no âmbito da revisão do plano em 2013, assumiu uma importância fulcral e nós, para trabalhar as várias temáticas, tentamos encontrar sempre experts na respetiva temática.

Somos um país com onze séculos de história, em que há uma relação privilegiada entre a nossa evolução histórica e a presença da fé católica, que é determinante para nós.

Então, o que nós achámos foi que deveríamos investir em 

 

materiais interpretativos de maior qualidade, que nos dessem uma panorâmica mais abrangente de todos os locais de culto, muitos dos quais são muito valiosos e já têm uma distinção como património mundial

da UNESCO.

Mas há

ainda locais

com enorme

potencial, que

respeitando a

missão do culto

poderão ter uma

otimização turística

maior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PM - Trabalhámos duas temáticas âncoras, que são absolutamente determinantes ao nível religioso, a devoção a Maria e a Santiago. E lançamos agora dois roteiros turísticos com uma série de itinerários espalhados por Portugal continental.

Gostaria só de realçar que não fazemos um enfoque apenas nos locais de culto, dos mais diversificados possíveis, mas também em todo um outro conjunto de propostas, desde museus a monumentos, propostas gastronómicas, todo um conjunto de património imaterial que está relacionado com o culto católico, e que também é muito importante e que pode complementar essa viagem com uma motivação mais religiosa.

 

AE – Este projeto poderá significar mais-valias em termos financeiros para Portugal, nesta altura de crise?

PM – Sim, estamos a trabalhar porque achamos que temos um potencial de atração, sobretudo em termos de público estrangeiro, que ainda estamos muito aquém de o atingir.

Ou seja,  Fátima está consagrada 

 
como um dos altares do mundo mas há todo uma série de património que julgamos que se for mais qualificado, se existirem materiais interpretativos de maior qualidade, se os percursos de visita tiverem outro tipo de atrações, poderão atrair muito mais viajantes, muito mais peregrinos, nomeadamente estrangeiros.

 

AE – Em termos de cuidados, na preservação desses caminhos marianos e de Santiago, de alguns que possam estar mais degradados, houve alguma iniciativa desse género?

PM – Ainda não estamos a ir por aí, aliás nos Caminhos de Santiago não pretendemos sugerir os vários caminhos portugueses que existem no nosso território, tentamos antes fazer um reportório de toda a iconografia presente no país.

Sabemos que para atrair mais visitantes precisamos de ter caminhos mais qualificados mas aí a intervenção de entidades de âmbito mais local e regional é determinante, nomeadamente os municípios onde os caminhos passam.

 

 

 

 

 

 

 

AE – Depois da apresentação destes roteiros, quais serão os próximos passos?

PM – Temos que ter os roteiros editados em língua inglesa e espanhola, queremos continuar a trabalhar esta articulação entre Igreja e Estado, que nos 

 

parece que teve um output bastante positivo, e temos que explorar todas as nossas potencialidades porque a própria Igreja reconhece que há aqui um percurso ainda a ser feito e a ser desenvolvido, em parceria com as outras entidades.

 

 

A boa interpretação do património ao serviço de todos

 

Sandra Costa Saldanha, diretora do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, fala sobre a parceria com o Turismo de Portugal

 

Agência ECCLESIA (AE) – Como é que se processou esta ligação entre o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja e o Turismo de Portugal?

Sandra Costa Saldanha (SCS) – Há já algum tempo, em 2012, iniciaram-se os contactos entre o Turismo de Portugal e o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, no sentido de serem preparados alguns conteúdos de visita para património religioso.

E para esse efeito o Turismo de Portugal contactou o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja e portanto foi assim que nasceu uma primeira ideia de se começar a desenvolver um projeto.

Os caminhos marianos e de Santiago são um dos resultados dessa parceria com o Turismo de Portugal que gostaria de promover percursos devocionais pelo país, partindo dessa componente

 

devocional e de fé, feita através de recursos patrimoniais.

E portanto ao Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja coube a competência de produzir esses conteúdos, recorrendo ao Marco Daniel Duarte e Paulo Almeida Fernandes, que produziram e redigiram estes roteiros.

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 AE – Este projeto faz parte de um conjunto de esforços, que incluem também áreas como a conservação e restauro, e a inventariação do património religioso português

SCS - Este projeto e este trabalho integra-se naquilo que é uma das áreas mais importantes na abordagem aos Bens Culturais da Igreja que é a interpretação do património.

E uma boa interpretação do património pode ser claramente colocada ao serviço de todos, em várias vertentes, nomeadamente na vertente turística, que é uma entre outras possíveis.

Mas é muito importante munir das ferramentas necessárias aqueles que conduzem visitas a templos católicos, sobretudo numa perspetiva de interpretação e correta interpretação do património religioso que tem a sua especificidade, é essa especificidade que através deste trabalho nós tentamos fornecer.

 

 

 
 

AE – O Guia de Boas Práticas vem tentar responder ao facto de nem todas as pessoas que trabalham nesta área terem formação adequada

SCS - O Guia de Boas Práticas do Património Religioso tem uma função eminentemente prática. É destinado a profissionais, é vocacionado para pessoas que sendo guias-interpretes ou agentes de turismo, conduzem visitas em templos católicos e o que pretende o guia é fornecer a especificidade das igrejas afetas ao culto, ou seja, tem várias abordagens.

Não tem conteúdos aprofundados sobre história de arte, tem conteúdos específicos sobre património religioso que complementam aquela que será a formação por exemplo nas áreas de turismo e outras que, normalmente não passa por estes aspetos específicos.

Haverá outros, para outras áreas, para a arquitetura civil, para castelos, para palácios, para as igrejas também existe uma linguagem própria e é essa especificidade que este guia de interpretação pretende transmitir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AE – Quando se fala muitas vezes em património religioso degradado, fechado ou mesmo escondido, esta parceria com o Turismo de Portugal pode contribuir para que ele seja cada vez mais bem aproveitado

SCS - Relacionamento com o Turismo de Portugal é muitíssimo frutífero para ambas as partes e por variadíssimas razões.

E entre as várias vantagens que apresenta uma delas é o aprofundamento do conhecimento relativamente aos muitos recursos que estão envolvidos neste projeto, e são qualquer coisa na ordem dos trezentos edifícios, permite disponibilizar melhor e mais qualificada informação sobre cada um deles e com isso evidentemente também potenciar a sua abertura, o seu conhecimento, a sua 

 

 

 

disponibilização, porque as igrejas servem exatamente para isso mesmo também, devem estar disponíveis a quem precisa delas.

 

 

AE – Que outros projetos estão já em estudo?

SCS - Está em estudo não só a continuidade deste projeto, Portugal Caminhos da Fé, com outros temas, nomeadamente dedicados ao culto antoniano, que é também muito relevante em Portugal ou aos Caminhos do Espirito Santo, que são também, sob o ponto de vista devocional, muitíssimo importantes no território nacional.

Assim como a produção de conteúdos referentes a outras igrejas e monumentos, com uma outra escala e outro tipo de projeto, nomeadamente as catedrais, os santuários, portanto, estamos a trabalhar conteúdos com vários objetivos.

 

Guia de Boas Práticas

O Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja (SNBCI) acaba de lançar um ‘Guia de Boas Práticas de Interpretação do Património Religioso’, destinado a profissionais, guias e quantos conduzem visitas.

A iniciativa resulta de um conjunto de ações promovidas pelo SNBCI, dedicadas ao tema ‘Como Visitar uma Igreja’, que tiveram por objetivo explorar a especificidade das igrejas afetas ao culto, contextualizadas num mais vasto programa de interpretação, “como fator valorativo e enriquecedor da visita”.

“Compreender o culto, saber ler o espaço e deixar-se interpelar pela beleza da arte cristã, descobrindo a mensagem intrínseca em cada monumento e nas suas obras, foram algumas das abordagens apresentadas, com destaque para o potencial do seu acervo patrimonial, integrado no âmbito litúrgico para o qual foi concebido”, adianta o SNBCI.

A edição conta com o apoio do Turismo de Portugal.

 

 

 

Índice

Apresentação

D. Pio Alves, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais

João Cotrim de Figueiredo, Presidente do Turismo de Portugal, I.P.

A importância do Touring religioso e cultural, Cristina Salsinha

O objetivo do Guia: importância da visita integrada, como fator valorativo e contextualizante, Sandra Costa Saldanha

A arte de celebrar: conhecer os atos e decifrar os símbolos, Carlos Aquino

Leitura e compreensão de um templo católico: lugares de culto e espaços-chave, Octávio Carmo

Os objetos ao serviço do culto: a função das obras e alfaias litúrgicas, Artur Goulart

Transmitir a história: processo de reconhecimento e valorização do património religioso, Nuno Resende

Bibliografia

 

 

 

 

 O 

 

 

 

 

Caminhos marianos:

uma proposta de percurso por uma constelação de incontáveis luzeiros

“Caminhos marianos” inaugura a coleção de roteiros disponibilizada através de uma feliz parceria entre o Secretariado dos Bens Culturais da Igreja e o Turismo de Portugal, instituições que colocaram entre os seus objetivos a qualificação da visita a espaços religiosos.

Propondo quinze itinerários em torno da temática mariana, o roteiro apresenta múltiplas motivações que podem impelir, quer os peregrinos do sagrado quer os forasteiros da cultura, a uma especial caminhada, tematicamente delineada, de norte a sul do País.

O mapa de Portugal, como até o da própria Europa, se traçados todos os pontos relativos ao culto mariano, será uma constelação de incontáveis luzeiros, compostos por ermidas, igrejas, santuários, altares e outros monumentos de ordem diversa e com expressão física diferenciada. Centenas destes pontos aparecem referenciados

 

 e dezenas deles descritos em ordem a uma visita cultural que possibilite a leitura do espaço nas suas amplas facetas (artística e religiosa).

A história de Portugal, não somente na sua expressão local, mas inclusivamente no plano político-institucional, encontra-se umbilicalmente ligada ao tema mariano, pois os seus diferentes quadros históricos sublinharam a definição de Portugal como “Terra de Santa Maria”, no dizer da historiografia tradicional. Desde a Senhora da Oliveira a Santa Maria de Alcobaça, desde Santa Maria da Vitória à Senhora de Belém, desde a Senhora da Conceição de Vila Viçosa ou do Sameiro até à Senhora de Fátima, o roteiro pontua os diferentes lugares que miríades de peregrinos tomam por meta na sua relação íntima com a que consideram Mãe de Deus, venerada através de uma imagem mais antiga, dos tempos da formação da nacionalidade, ou através de uma das suas 

 

 

 

 

imagens mais conhecidas entre os católicos do século XX/XXI, nascida em Fátima e depressa difundida como um dos mais importantes ícones do mundo religioso contemporâneo.

Apoiado por vários mapas, por uma cronologia e por algumas outras ferramentas de consulta rápida (informações gerais sobre, por exemplo, horários de culto e de visita), não pretende este itinerário favorecer tão-somente uma visita a imagens e lugares de devoção, mas outrossim contribuir para a fruição de todo um conjunto de construções que proporcionem uma experiência estética. Dois critérios fundamentais estiveram subjacentes aos textos que se apresentam: por um lado, a leitura geral do edifício do ponto de vista da sua estruturação artística, enquadrada pelas coordenadas histórico-culturais mais importantes e, por outro, a ligação do edifício à temática mariana. Por esta razão, as fotografias que documentam as páginas do roteiro não mostram apenas a paisagem construída ou natural, mas também a paisagem humana que se constrói nos dias de festa. 

 

 

Se na viagem o viandante tiver a felicidade de encontrar o lugar nesse especial dia de festa, deixe de parte o roteiro e viva o que ali acontece. Para os outros dias, tentará o roteiro oferecer essa contextualização em ordem à perceção da completa vivência do lugar, ao mesmo tempo cultual e cultural.

Marco Daniel Duarte,

Diretor do Serviço de Estudos e Difusão do Santuário de Fátima

 

 

 

(Mais que) Caminhos de Santiago

São diversas as faces do apóstolo Tiago em Portugal. A proximidade em relação a Compostela poderia ter favorecido a constituição de caminhos de peregrinação semelhantes aos do Norte de Espanha. Mas a devoção no território português é feita de diversidades, permanências, mutações, memoráveis realizações artísticas e não menos notáveis registos da passagem do tempo no quotidiano das comunidades.

Santiago não foi apenas o apóstolo, o peregrino ou o guerreiro (como a arte tanto o retratou). Foi também o patrono de festividades de Verão, um momento específico do calendário agrícola, o denominador comum de feiras, a razão de hospitais e albergarias, a explicação para a existência de outros santos, o homem e a lenda reconfigurados pelos séculos até ao momento de os desvendarmos nesta brilhante era do conhecimento.

O roteiro Caminhos de Santiago pretende chamar a atenção para essas outras extensões do culto

 

 a Santiago em Portugal, muito para lá dos caminhos de peregrinação. Através de 8 percursos, pretende-se evidenciar a transversalidade de um culto que contribui para a própria identidade da cultura portuguesa.

 

NORTE

Cenário, por excelência, das peregrinações a Compostela, o Norte guarda as mais diversificadas alusões ao culto. Compreensivelmente, a dimensão peregrina é predominante e deixou marcas não apenas em igrejas e mosteiros, mas também nos caminhos, nas pontes, nas festividades, em lendas, memórias fúnebres, capítulos de património imaterial e, mais recentemente, na escultura pública.

 

NORDESTE

A descoberta do culto no Nordeste é surpreendente. Aqui não existem obras de arte de vanguarda nem realizações especialmente ricas. Percorrer este imenso Portugal é descobrir o território da religiosidade 

 

 

 

 

 

 

 

popular, das lendas, mitos e crenças, da tradição oral, das manifestações profanas associadas à vivência religiosa e à vitalidade de apertados caminhos.

 

CENTRO

Lisboa e Coimbra eram as duas principais cidades medievais e nelas se concentra um 

 

significativo número de manifestações do culto. Entre ambas dava-se (como ainda hoje) a transição entre Norte e Sul, âmbitos que diferenciam também duas distintas opções  iconográficas dominantes relativas à representação do apóstolo: o peregrino, preponderante no Norte; e o guerreiro, mais comum no Sul.

 

SUL

Um tanto paradoxalmente, o Sul de Portugal conserva mais importantes testemunhos do culto a Santiago que o Centro e muitas áreas do Norte. A explicação reside na profunda ocupação do território pela Ordem de Santiago, principal agente da conquista e do povoamento medievais desde a península de Setúbal até ao Algarve.

 

Paulo Almeida Fernandes,

Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP – Univ. Coimbra)

 

 

Fugas do mundo nas sendas de Deus

A fuga mundi, fuga do mundo, era uma das ideias do monaquismo cristão no seu início. Talvez os monges medievais não estivessem tão longe da busca contemporânea de lugares de tranquilidade, lugares mágicos de reencontro consigo mesmo.

 

"Todos os hóspedes que se apresentam [no mosteiro] sejam recebidos como se fosse o próprio Cristo, pois Ele dirá [um dia]: 'Fui hóspede e recebestes-me.'"

Tudo começou assim, com Bento de Núrsia, monge que viveu entre cerca de 490 e 547, na região da Umbria italiana (onde, sete séculos depois, nasceria Francisco de Assis).

Eram tempos em que o cristianismo, proclamado por Constantino como religião de Estado, esmorecia nas suas práticas e relaxava a exigência de vida. Muitos crentes começaram, então, a retirar-se para lugares de silêncio e solidão, em busca de uma vida mais ascética e purificada.

Bento de Núrsia foi um deles. Decidiu viver numa gruta de montanha em Subiaco, a leste

 

de Roma. Pelo ano de 530, mudou para Monte Cassino. Tomou um texto de uma regra já existente, a Regra do Mestre.

Abreviando-a, sublinhou a perspectiva comunitária do monaquismo, aliando ao mesmo tempo a oração, a reflexão intelectual e o trabalho manual - surge o lema ora et labora (reza e trabalha). A regra estabelece também formas de rezar, normas de obediência, regras sobre a propriedade ou o modo de acolher qualquer hóspede que chegue.

Com o texto, Bento tornou-se o iniciador do monaquismo cristão como o conhecemos. Surgiu uma autêntica rede de mosteiros beneditinos, decisiva na construção da identidade europeia medieval - a ponto de, em 1964, o Papa Paulo VI proclamar São Bento padroeiro da Europa a sua festa litúrgica é assinalada no próximo dia 11.

A ideia do acolhimento de quem passava era essencial na vida dos monges. "A cada [hóspede] sejam prestadas as honras convenientes, de modo particular aos 'domésticos da fé' [clérigos e monges] e aos peregrinos",

 

 

 

© Daniel

 

acrescentava a regra, que dispunha depois os pormenores práticos.

No início do monaquismo, a fuga mundi, fuga do mundo, estava muito presente, traduzindo o desprezo por aquilo que o mundo significava de pecado ou desumanização. Não se tratava de abandonar a vida, mas de ir nas sendas de Deus, traduzindo a tensão permanente da mensagem de Jesus: ele viera não para julgar "mas para salvar o mundo"

 

(Evangelho segundo S. João 12, 47) e dizia, sobre os seus seguidores: "Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do mal" ( João 17, 15).

Esta fuga mundi era um exílio purificador, notava a escritora italiana Cristina Campo, a propósito dos primeiros eremitas e anacoretas do deserto: "É o exílio, a travessia o que conta para eles e que eles vieram ensinar, com os seus monossílabos siderais 

 

 

 

e as suas monumentais reticências: o ser irreversivelmente estranhos nesta terra, o viver exactamente 'como um homem que não existe'." (Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, ed. Assírio & Alvim).

 

Busca interior

Pode ser essa ideia de travessia, de ir de um lugar a outro de cada vida, que hoje leva tantas pessoas a procurar lugares de tranquilidade, natureza e pacificação. Afinal, talvez os monges medievais não estivessem muito longe dessa busca e contemporânea. E do anseio de fugir ao quotidiano.

Lugares assim, mágicos, quase sempre, de tranquilidade e silêncio, de reencontro com o mais fundo de si mesmo, onde a água como fonte de vida e sobrevivência estava quase sempre presente, eram também os lugares procurados pelos monges para essa fuga.

Hoje, mosteiros e conventos continuam a ser possibilidades de, na fuga, reencontrar o mundo. E continuam a ser lugares

 

de hospitalidade, mesmo se o acolhimento surge já como um desafio mútuo, para quem chega ou quem está: "Com aqueles que acolhemos (...) queremos procurar a maneira de recuperar um impulso e descobrir como viver Cristo para os demais. (...) Gostaríamos que os jovens encontrassem a paz do coração", escrevia o irmão Roger, de Taizé, a comunidade da Borgonha francesa que acolhe milhares de jovens todos os anos, especialmente durante o Verão.

Em Portugal, há também sítios destes. Que podem ser lugar para umas férias diferentes ou para tempos de descanso. Mosteiros e conventos que convidam à busca interior, à procura do melhor de si mesmo, da natureza ou (para quem crê) de Deus. Onde o acolhimento continua a ser uma dimensão importante.

São lugares que nos permitem, enfim, alargar olhares. No livro Um Deus Que Dança (ed. AO), escreve José Tolentino Mendonça: "'Reparai nos pássaros.' 'Reparai nos lírios.' Jesus convida-te a expandir o olhar, libertando-o dos rotineiros circuitos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há quanto tempo não reparas? É tão fácil os olhos colarem-se ao chão e as visões ficarem reduzidas ao minúsculo círculo do eu. O desafio de Jesus é mudar a escala do nosso olhar. Repara além de ti. Fernando Pessoa  escreveu: 'Nós somos da altura do

 

 que vemos.' O que é que tens visto? E como?"

 

António Marujo,

Jornalista e autor do livro ‘Lugares do infinito: Um guia de mosteiros e conventos para reencontrar o mundo’ (Paulinas)

[O autor escreve segundo a anterior ortografia]

 

Uma oração histórica pela paz

O Papa Francisco deixou no Vaticano um apelo contra a guerra, durante um inédito encontro de oração pela paz no Médio Oriente que reuniu os presidentes de Israel e da Palestina, este domingo, sob os olhares da comunidade internacional.

“Senhor, ajudai-nos Vós! Dai-nos Vós a paz, ensinai-nos Vós a paz, guiai-nos Vós para a paz. Abri os nossos olhos e os nossos corações e dai-nos a coragem de dizer: «nunca mais a guerra»; «com a guerra, tudo fica destruído»”, disse, após a celebração que contou com momentos de oração de judeus, cristãos e muçulmanos.

A intervenção de Francisco recordou as tentativas falhadas de resolver os conflitos através da força das armas, provocando “tantos momentos de hostilidade e escuridão; tanto sangue derramado; tantas vidas despedaçadas; tantas esperanças sepultadas”.

“Para fazer a paz é preciso coragem, muita mais do que para fazer a guerra. É preciso coragem para dizer sim ao encontro

 

 e não ao confronto; sim ao diálogo e não à violência; sim às negociações e não às hostilidades; sim ao respeito dos pactos e não às provocações", referiu.

O Papa agradeceu aos participantes no encontro, que além do presidente israelita Shimon Peres e do presidente palestino Mahmoud Abbas contou com a presença do patriarca ecuménico de Constantinopla (Igreja Ortodoxa), Bartolomeu, bem como de responsáveis da Santa Sé e representantes judaicos e islâmicos.

“Espero que este encontro seja o início de um caminho novo à procura do que une para superar aquilo que divide”, afirmou Francisco.

O “encontro de invocação da paz para a Terra Santa, o Médio Oriente e o mundo inteiro” foi um desafio lançado a 25 de maio pelo Papa aos presidentes de Israel e da Palestina, durante a viagem pontifícia à região.

“É um encontro que responde ao ardente desejo de quantos anelam pela paz e sonham um mundo onde os homens

 

 

 

 

 e as mulheres possam viver como irmãos e não como adversários ou como inimigos”, disse Francisco, no domingo.

Simbolicamente, os líderes trocaram um aperto de mão antes de plantar uma oliveira, como 'sinal do desejo comum de paz entre o povo palestino e o povo israelita'.

Shimon Peres agradeceu ao Papa pela sua “histórica visita” à Terra Santa, durante a qual, disse,

 

 Francisco “tocou o coração das pessoas, independentemente da sua fé e nacionalidade”, por se ter apresentado como “um construtor de pontes de fraternidade e de paz.

Mahomoud Abbas, por sua vez, manifestou ao Papa o seu apreço pela visita às cidades de Jerusalém e de Belém, como “expressão sincera da sua crença na paz e uma tentativa verdadeira para alcançar a paz entre palestinos e israelitas”.

 

 

Dia Mundial contra o Trabalho Infantil

O Papa Francisco associou-se ao Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, que se celebra anualmente a 12 de junho, pedindo que a comunidade internacional “alargue a proteção social” aos menores para “debelar esta chaga”. “Dezenas de milhões de crianças - dezenas de milhões, ouviram bem? - são obrigadas a trabalhar em condições degradantes, expostas a formas de escravidão e exploração, bem como a abusos, maus-tratos e discriminação”, alertou, no final da audiência pública semanal que levou milhares de pessoas à Praça de São Pedro, no Vaticano.

Francisco afirmou que 

 

“uma infância serena permite que as crianças olhem com confiança para a vida e o futuro”, mostrando um dos panfletos preparados na Itália para esta jornada mundial.

“Renovemos todos o nosso compromisso, em particular as famílias, para garantir a todos os meninos e meninas a salvaguarda da sua dignidade e a possibilidade de um crescimento são”, concluiu, pedindo uma oração à Virgem Maria pelas crianças que são “exploradas” através do “trabalho” ou de “abusos”.

A Organização Internacional do Trabalho escolheu como tema para a jornada de 2014 ‘Alargar a proteção social, combater o trabalho infantil’.

 

 

 

Mensagem do Papa para o Mundial

O Papa gravou uma mensagem para a abertura do Mundial de Futebol no Brasil, que hoje se começa a disputar, pedindo que esta seja uma “festa da solidariedade entre os povos” e de luta contra a discriminação. “Para vencer, é preciso superar o individualismo, o egoísmo, todas as formas de racismo, de intolerância e de instrumentalização da pessoa humana”, refere Francisco, numa intervenção transmitida pela televisão brasileira.

“Ninguém vence sozinho, nem no campo, nem na vida! Que ninguém se isole e se sinta excluído! Atenção! Não à segregação, não ao racismo”, insiste.

O Papa sublinha que este é um evento que supera as “fronteiras de língua, cultura e nação” e vai para além da dimensão comercial. “Isso supõe que as competições futebolísticas sejam consideradas por aquilo que no fundo são: um jogo e ao mesmo tempo uma ocasião de diálogo, de compreensão, de enriquecimento humano recíproco”, realça.

Para Francisco, assumido adepto do futebol, o desporto não é apenas uma “forma de

 

 

 entretenimento”, mas sobretudo “um instrumento para comunicar valores que promovem o bem da pessoa humana e ajudam na construção de uma sociedade mais pacífica e fraterna”.

“Pensemos na lealdade, na perseverança, na amizade, na partilha, na solidariedade. De facto, são muitos os valores e atitudes fomentados pelo futebol que se revelam importantes não só no campo, mas em todos os aspetos da existência, concretamente na construção da paz”, sustenta.

A mensagem apresenta “três lições da prática desportiva” para a causa da paz: a necessidade de treinar, o ‘fair play’ (jogo limpo) e a honra entre os competidores.

 

 

 

 

A Agência ECCLESIA escolhe sete acontecimentos que marcaram a atualidade eclesial portuguesa nos últimos dias, sempre atualizados em www.agencia.ecclesia.pt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Peritos apresentam reconstituição do rosto de Santo António

 

 

 

Mensagem do Papa para o Mundial 2014

 

Pope to you!

http://www.pope2you.net/

 

Decorria o ano de 2009 por ocasião do 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais e o Vaticano lançava este magnífico micro-portal denominado “Pope to you”. Como celebramos há poucos dias o único dia mundial estabelecido pelo Concílio Vaticano II no decreto Inter Mirifica, achamos oportuna a sugestão de navegação até ao sítio www.pope2you.net.

Este projeto inovador e bastante arrojado pretende ser mais um canal de aproximação do papa aos jovens. Para isso foi criada uma parceria entre, o Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, o Centro Televisivo e Rádio Vaticano, a Livraria Editora do Vaticano a H2ONews e a Conferência Episcopal Italiana, no sentido de canalizarem para este portal algumas das potencialidades da internet 2.0.

Ao entrarmos neste espaço, deparamo-nos com um design inovador e enquadrado ao perfil de utilizador a que se destina.

 

 Temos ao dispor quatro grandes aplicações de partilha de informação (facebook, iphone, wikicath, youtube).

A “facebook application”, permite o utilizador receber as mensagens do papa Francisco, através da rede social mais utilizada do mundo. Assim podemos escutar as suas palavras, aceder às suas fotografias e receber mensagens de felicitações através dos “postcards virtuais”.

Outra aplicação denominada “H2ONews iphone”, serve para distribuir exclusivamente para a plataforma móvel da Apple em vídeo e áudio, as notícias mais importantes da vida da Igreja no mundo.

Com a aplicação “wikicath”, iremos olhar para as mensagens pontifícias de uma nova perspectiva. Assim, esta plataforma estilo “wiki”, possui conteúdos interactivos e com hipertexto, dando destaque aos comentários e conceitos chave mais relevantes nos textos criados pelo papa. Pode ser uma ferramenta bastante útil

 

 

 

para uma leitura pessoal, facilitando termos e significados que por vezes são difíceis de interpretar por aqueles que estão menos informados.

Por último, o já conhecido canal do Vaticano no Youtube, onde temos ao nosso dispor todos os vídeos produzidos pelo Centro Televisivo e Rádio Vaticano e onde atualmente são efetuadas transmissões em direto, das deslocações do papa Francisco.

Aqui fica a sugestão de navegação que irá revolucionar o modo de distribuição de informação, bem como a maneira como a consumimos.

 

Fernando Cassola Marques

 

 

 

Os Papas do século XX

«Os Papas do século XX» é um livro em que D. Manuel Clemente apresenta uma pequena biografia de cada um dos Papas, bem como os seus contributos mais importantes para a Igreja e para a sociedade. Leão XIII, Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II são os nomes dos nove Papas que atravessaram todo o século XX e que este livro retrata brevemente.

Com a recente canonização dos Papas João XXIII e João Paulo II, reeditam-se estes «quase telegramas, que ainda assim podem proporcionar uma visão geral ao leitor que a pretenda».

Na introdução, D. Manuel Clemente revela que «alguns destes Papas, na respetiva biografia pessoal, trazem o “século XIX” até à Primeira Guerra Mundial. Mas, em termos de relação do papado com a Igreja e a sociedade, quase podemos antecipar o “século XX” para 1870: fim do poder temporal dos Papas e realce da sua missão pastoral na Igreja. Ou para 1878: eleição de Leão XIII, autonomização e

 

 redefinição da Igreja e do Estado nas suas relações mútuas e mobilização “social” dos católicos».

Para o Patriarca de Lisboa, «esta centralidade efetiva do papado na vida da Igreja a escala mundial esteve na origem de sucessivos “programas” que marcaram os últimos cento e vinte anos: 1) O “movimento [social] católico” impulsionado por Leão XIII; 2) A catequização geral, lançada por Pio X; 3) A Ação Católica, generalizada por Pio XI; 4) O Concilio Vaticano II, de João XXIII e Paulo VI; 5) O “grande” Jubileu de João Paulo II». Este livro comprova por isso mesmo que «do ponto de vista católico – e não só – bem se pode analisar o século passado a partir da história do papado». Na lista dos nove Papas do século XX pode ver-se «aristocracia, classe média, campesinato e operariado... Eruditos, diplomatas, pastores... As várias “fronteiras” da Igreja e do mundo no coração do catolicismo».

Um caminho por todo o

 

 

 

 

 século XX que pode acompanhar neste livro. Uma oportunidade para conhecer ou aprofundar a história dos Papas e da sociedade, num século recheado de acontecimentos centrais na história da Igreja e do mundo.

 

 

 

Os Papas do Século XX (3.ª edição revista e aumentada)

Autor D. Manuel Clemente

ISBN 978 972 30 1061 9

Secção: Espiritualidade

Coleção: Reflexões

Páginas: 144

Preço: € 11,00

Editora: PAULUS

 
 

 

 

 

 

O bispo de Santarém, D. Manuel Pelino, vai encontrar-se este sábado, na Sé diocesana, com as crianças que fizeram a Primeira Comunhão no atual ano pastoral. Segundo o Secretariado Diocesano da Catequese (SDC) este é "um momento de forte sentido eclesial" e "uma oportunidade para as crianças conhecerem o seu pastor" em "clima de festa e celebração".

 

A Diocese do Funchal vai assinalar os 500 anos de história com uma Assembleia Diocesana Jubilar e uma eucaristia presidida pelo enviado do Papa Francisco, cardeal Fernando Filoni, na tarde de domingo, no Estádio dos Barreiros.

 

O Papa Francisco vai receber em audiência a 16 de junho, no Vaticano, o líder da Igreja Anglicana e arcebispo de Cantuária, Justin Welby. O gabinete de comunicação da Santa Sé adianta que o encontro entre os dois líderes religiosos será sobretudo voltado para a reflexão à volta da “chaga moderna da escravatura e tráfico de seres humanos”.

 

Um grupo de portugueses ligados à Associação Cultural Amor e Responsabilidade (ACAR), com sede em Caldas da Rainha, vai oferecer ao Papa uma escultura de Cristo na Cruz com Maria. De acordo com uma nota do Patriarcado de Lisboa, enviada à Agência ECCLESIA, a estátua de 2,70 metros de altura tem como título ‘Ut Christus Ecclesiam Amavit’ (Como Cristo Amou a Igreja) e vai ser entregue a Francisco durante a audiência pública de dia 18 de junho, no Vaticano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Programação religiosa nos media

Antena 1, 8h00

RTP1, 10h00

Transmissão da missa dominical

 

11h00 - Transmissão missa

 

12h15 - Oitavo Dia

 

Domingo: 10h00 - O Dia do Senhor; 11h00 - Eucaristia; 23h30 - Ventos e Marés; segunda a sexta-feira: 6h57 - Sementes de reflexão; 7h55 - Oração da Manhã;  12h00 - Angelus; 18h30 - Terço; 23h57-Meditando; sábado: 23h30 - Terra Prometida.

 
RTP2, 11h22

Domingo, dia 15 - 50 anos de sacerdócio de António Rego: o percurso de um padre e jornalista.

 

RTP2, 15h30

Segunda-feira, dia 16 - Entrevista ao padre António Marcelino e professor Diogo Vieira: o desporto e a educação;

Terça-feira, dia 17 - Informação e entrevista a Aura Miguel;

Quarta-feira, dia 18 - Informação e entrevista a Filipe Teixeira.

Quinta-feira, dia 19 - Informação e entrevista a António Matos Ferreira;

Sexta-feira, dia 20 - Apresentação da liturgia de domingo pelos padres Robson Cruz e Vitor Cruz.

 

Antena 1

Domingo, dia 15 de junho,  06h00 - «Portugal: a Saúde da Democracia»: ecos da 10ª Jornada da Pastoral da Cultura. Comentário à atualidade informativa com a jurista Paula Martinho da Silva.

 

Segunda a sexta-feira, 22h45 - 16 e 20 junho - A realidade da catequese na adolescência: Paulo Campino, diocese de Santarém; Isabel Oliveira, diocese do Porto; Cristina Sá Cravalho, Secretariado nacional de Educação Cristã; padre manuel Queirós, diocese de Vila Real; Assunção Costa, diocese de Aveiro.

 

 

Podemos adorar Maria?

 

 

 

 

 

 

 

 

ANO A - 11.º Domingo do Tempo Comum - Solenidade da Santíssima Trindade

 

 

Transformados no amor da Trindade
 

A Solenidade que hoje celebramos é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

Na primeira leitura, o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, apresenta-Se como clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia.

Na segunda leitura, Paulo expressa, através da fórmula litúrgica “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

estejam convosco” com que iniciamos a Eucaristia – a realidade de um Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para essa dinâmica de amor.

No Evangelho, João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor, que vai até ao dom da vida do Filho único e amado, plasma-se a grandeza do coração de Deus.

A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas diferentes de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se

 

 na nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue dizer o indizível, não consegue definir o mistério de Deus. Resta-nos contemplar e adorar a Trindade.

Essa adoração leva-nos a servir, a ter atitudes concretas da presença do amor de Deus em nós. Como nos diz a segunda leitura de Paulo, que releio aqui: «Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco».

Na início da missa respondemos: «Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo». No final, poderíamos dizer: Bendito seja Deus que nos envia em missão no amor de Cristo». Que assim seja nesta semana, transformados pelo amor da Trindade!

Manuel Barbosa, scj

www.dehonianos.org

 

 

A difícil construção da paz na República Centro-Africana

Impossível esquecer

Há dias, um ataque armado contra uma igreja em Bangui, a capital da República Centro-Africana, causou dezenas de mortos. O país está num caos terrível e teme-se um verdadeiro genocídio. Mas há quem ainda acredite na paz. É o caso do padre Aurelio Gazzera

 

A violência que tomou conta da República Centro-Africana enlouqueceu as pessoas. Na última quarta-feira de Maio, a igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, estava cheia. Eram milhares de refugiados. Estavam ali quando, de súbito, homens armados irromperam por ali aos tiros. Foi o caos. Trinta pessoas morreram logo, muitos ficaram feridos. Por causa deste ataque, horas mais tarde, deitaram fogo a uma mesquita. Pelas ruas, há barricadas. As populações procuram defender-se. Todos acusam as autoridades de agirem com lentidão. No meio do caos, sobra apenas a Igreja.
A República Centro-Africana é um país fracassado. Desde a independência, em 1960, 

 

sucederam-se golpes de Estado. De pouco vale à população os diamantes, ouro e urânio que se escondem no subsolo. Em Março de 2013, uma força rebelde, conhecida como os Seleka, derruba o governo e toma conta da capital, dominando o país. A República Centro-Africana ficou a saque. Maioritariamente muçulmanos, estes rebeldes espalharam o terror. As paróquias e missões católicas foram objeto de uma violência impensável. Há dioceses onde a Igreja não tem um único veículo. Foi tudo destruído.

 

A caminho do genocídio

A violência foi tal que as Nações Unidas decidiram, em Outubro do ano passado, aprovar uma intervenção militar no país, encabeçada por militares franceses. Mas antes, as populações começaram a organizar-se, defendendo-se. Apareceram os anti-Balaka, falsamente conotados como cristãos. Os enfrentamentos

 

 

 

 

 

 

 entre os Seleka e os anti-Balaka fizeram já temer um genocídio. Desde Dezembro que mais de 1 milhão de pessoas tiveram de fugir por causa da violência, dos atos de vingança. Agora, depois do ataque mortífero contra a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, percebe-se que nem as igrejas são santuários de paz, lugares de refúgio. O medo está em todo o lado. Em Abril, a convite da Fundação AIS, o padre Aurelio Gazzera, responsável pela missão de Bozoum, esteve em Bruxelas, para explicar à União Europeia que a comunidade internacional tem de compreender esta

 

 catástrofe para que alguma coisa possa mudar. O padre Aurelio disse que, “mais importante do que as armas, é a perseverança que pode fazer a diferença”. Disparar um tiro é fácil. A paz em Bozoum é frágil, mas o padre Aurelio é teimoso. Reuniu-se com os cabecilhas dos Seleka e anti-Balaka e convenceu-os a juntarem-se num esforço de paz. A Igreja é a única instituição que pode fazer essa reconciliação. “Temos de trabalhar para transformar esta crise numa oportunidade, pois sabemos que só a cruz leva à ressurreição”. defende o padre Aurelio.

Paulo Aido 

www.fundacao-ais.pt

 
 

 

Misericórdia à luz dos dias de hoje

Manuel de Lemos

Presidente da União das Misericórdias Portuguesas

 

Foi há poucos dias que as Misericórdias de Portugal estiveram reunidas no seu XI Congresso Nacional. Centenas de irmãos, dirigentes e colaboradores das nossas instituições deslocaram-se a Évora para, em conjunto e com serenidade, debaterem sobre os desafios mais prementes da nossa missão.

Foram momentos altos da nossa existência. Não só pelo fraterno debate encetado, mas também pelas diversas personalidades que a nós se juntaram, dando assim prova da importância da atividade das Misericórdias, tanto no plano da atualidade da nossa ação, como na inspiração cristã que, há mais de 500 anos, faz com quem sejamos instituições únicas no nosso país.

De destacar a presença de diversos membros do governo, entre eles o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social (MSESS), Pedro Mota Soares, e o secretário de Estado da Segurança Social, Agostinho Branquinho. Com eles temos conseguido alavancar a atuação das entidades de economia social, em especial das Misericórdias, buscando, através de um diálogo franco, constante e desassombrado, as melhores vias para solucionar os problemas dos nossos concidadãos.

Através da troca de impressões, temos sido capazes – União das Misericórdias 

 

 

 

 

e governo – de encontrar equilíbrios para as contas públicas, para a qualidade dos serviços prestados aos portugueses e também para a sustentabilidade das nossas instituições. Neste sentido, é importante recordar algumas medidas recentes do MSESS. As entidades de economia social poderão manter-se proprietárias de farmácias de oficina, não tendo que, como há muito se

 

 vinha a discutir, de constituir sociedades comerciais. O mesmo Ministério decidiu ainda esclarecer um conjunto de dúvidas que resultavam do decreto-lei n.º 33/2014, de 4 de março. Esta alteração, que se saúda vivamente, vem tornar claro um conjunto de preocupações das instituições do setor social e que, no entender de muitos, não acautelava a identidade e natureza das instituições.

 

 

 

Estas duas medidas são o reflexo do diálogo entre setor social e Estado e certamente reverterão em favor do bem-estar dos 150 mil portugueses que diariamente são apoiados pelas Misericórdias em variadas respostas que vão dos lares para terceira idade às creches, passando ainda pelo acolhimento de jovens em perigo, pessoas portadoras de deficiência e cantinas sociais, entre outros.

Mas não foi apenas a atualidade da nossa ação social a marcar este encontro nacional. A nossa identidade cristã esteve evidente em dois momentos altos. Além do desfile das irmandades no centro da cidade de Évora, tivemos a oportunidade de contar com Sua Reverendíssima o Arcebispo de Évora para a celebração da missa que inaugurou os trabalhos deste XI Congresso Nacional. Na sua homilia, D. José Alves evocou a memória de Nossa Senhora da Visitação, padroeira das Santas Casas e que desde sempre tem inspirado e protegido a nossa missão, fazendo com que 

 

sejamos capazes de, como sabiamente afirmou D. José Alves, “chorar com os que choram”, mas também alegrarmo-nos com os que estão alegres, bendizer em vez de hostilizar e abençoar em vez de amaldiçoar.

Foi então com base nestes dois eixos da nossa atuação que, nas conclusões do congresso, convidámos todos os portugueses a fazer a sublime experiência de ler as 14 obras de misericórdia à luz dos dias de hoje e descobrir que, extraordinariamente, estão ali as bases de uma sociedade mais inclusiva e mais solidária e que todos procuramos no nosso dia a dia. Tenho ouvido e dito inúmeras vezes que as nossas Santas Casas são anteriores ao que hoje conhecemos como Estado social. Temos sobrevivido aos tempos porque somos capazes de adaptarmo-nos às condições de cada era, sempre inspirados pelas sete obras corporais e sete espirituais de misericórdia.

O nosso congresso deu público testemunho desta nossa 

 

 

 

 

atualidade, ancorada nestes valores. Todas as intervenções, todos os comentários, todas as notas, todas as conclusões, de um modo mais ou menos explícito, deixaram clara essa realidade 

 

que posso talvez sintetizar na necessidade absoluta da continuação do nosso trabalho com toda a determinação e entusiasmo que aqui demonstramos.

 

 

Cromos da bola…

Tony Neves

 
 

Muita gente considera um pouco estranho ver 22 pessoas a correr atrás de uma bola, mas a verdade é que o futebol se impôs como o grande desporto mundial. Como sempre, as iniciativas de sucesso são rapidamente apanhadas pela onda da ganância económica e correm rios de milhões atrás e á frente dos futebolistas e dos eventos do mundo do futebol. Este Mundial que agora começa no Brasil prova isso mesmo.

Depois do espectáculo encenado das convocatórias, iniciou-se a contagem decrescente para a Abertura da Copa. Muitas movimentações se sentem em todo o lado, mas espanta que um Brasil de futebol e samba (dizia-se!) tenha grandes manifestações a contestar os milhões investidos em estádios e outras infra-estruturas, enquanto que a saúde, a educação e outros valores de primeira necessidade não estão acessíveis a uma parte significativa dos brasileiros. Nunca ninguém imaginou que fosse o Brasil o primeira país a pôr em causa um Mundial de Futebol, mas os tempos que vivemos são de grande significado simbólico pois provam que o povo vai abrindo os olhos e percebendo as injustiças que são cometidas.

Estive no Brasil no início do ano e vi alguns dos estádios em construção e aeroportos em renovação acelerada. Tudo por causa da Copa, ouvindo já queixas dos missionários e do povo que contestavam esta política de

 

 

 

 

 

Luso Fonias

 

 

 investimentos que punha em causa apoios sociais às classes mais desfavorecidas.

Mas também é verdade que, em muitos bairros pobres por esse mundo além, a prática do futebol dá uma ajuda preciosa à integração social. E isto por diversas razões: o futebol obriga a treinar e a jogar em equipa; o futebol implica disciplina e projeto de jogo; o futebol impede o uso de drogas, álcool e outros produtos nocivos á saúde; o futebol é saudável pelo

 

 exercício físico; o futebol integra crianças e jovens no contexto dos seus bairros, criando uma rede de amigos…

Tudo ponderado, não há razões para enforcar o futebol na praça pública. Há sim que avaliar o envolvimento dos interesses económicos e financeiros no mundo do desporto. O princípio da ‘mente sã num corpo são’ é mais atual do que nunca e há que ajudar o desporto a cumprir a sua missão de integração social.

 

 

“Pode ouvir o programa Luso Fonias na rádio SIM, sábados às 14h00, ou em www.fecongd.org. O programa Luso Fonias é produzido pela FEC – Fundação Fé e Cooperação, ONGD da Conferência Episcopal Portuguesa.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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